quarta-feira, 29 de abril de 2020


OUTONO ESPIRITUAL


          Era uma tarde de domingo, Festa da Divina Misericórdia, diante de Jesus Sacramentado, eis que no meu coração uma voz sussurrava: “Meu filho, eis que estou dando ao mundo inteiro, a graça de experimentar um outono espiritual, onde parece que tudo está perdido e não existe vida, porém, misteriosamente estou agindo na humanidade inteira; não tenhais medo, pois estou preparando uma grande primavera, para renovar todas as coisas”.

Naquele momento compreendi que este tempo de pandemia, embora seja de muitas provações, tem sido também a experiência do kairós (o tempo de Deus) na nossa vida. Àquele tempo que nós muitas vezes não conseguimos experimentar, pois no corre-corre diário, pensamos no nosso tempo (krónos), sobretudo das inúmeras maneiras de não o perder, pois como dizem alguns: “tempo é dinheiro”.

O que acontece no outono? Os dias são mais curtos, a temperatura é amena, os frutos e folhas começam a cair; tempo que começamos a relaxar um pouco, curtir as tardes mais frescas, com uma brisa leve que nos traz um certo grau de nostalgia, até mesmo levando a sentir saudade de coisas velhas, que há tanto tempo deixamos para trás, correndo o risco de levar a vida em “banho-maria”, caindo na mornidão – porém, o Senhor nos adverte: não seja morno (cf. Ap 3,16) – o que pode levar à indiferença da fé, duvidando, até mesmo, do cuidado de Deus.

Temos nos encontrado menos, reunindo pequenas assembleias (reais) ao lado de uma grande assembleia (virtual), sem deixar de ser uma Igreja viva e atuante, contudo, temos sentido, ao mesmo tempo, um entusiasmo da parte de alguns e o desânimo por parte de outros. Vidas estão sendo ceifadas por um vírus, sonhos estão deixando de existir, interrupções rápidas nas páginas da história, e o que isso tem nos ensinado? Não é tempo de desanimar, haverá um recomeço e nós veremos como Deus foi generoso quando as belas folhas começarem a aparecer, os frutos mais saborosos forem colhidos e juntos cantarmos as maravilhas do Senhor, que não se esqueceu do seu povo amado.

Outono é tempo de podar, de limpar, de tirar o que atrapalha, porém, a melhor poda é aquela que não se faz; que não se faz por nossas mãos, mas pelas mãos de Deus que tudo criou e tudo fará novo de novo. Na natureza não há poda, as plantas, pequenas ou grandes, crescem e se renovam no passar do tempo, assim temos visto, se acompanhamos todas as notícias (não somente as ruins) que os mares estão mais limpos, os animais andam com mais liberdade em espaços urbanizados, o índice de poluição diminuiu e, até mesmo, um buraco na camada de ozônio está se fechando.

Qual foi nossa colaboração diante de tudo isso? Não ter feito nada, deixando Deus – o grande artesão – fazer a parte dele. Quando foi que imaginamos que poderíamos ajudar a salvar a humanidade não fazendo nada, apenas cumprindo um isolamento social, deixando Deus ser Deus e nada mais? Pois é, assim estão sendo escritas as novas páginas da história da humanidade, fazendo-nos ver que, por mais importante que seja aquilo que fazemos, nós nunca teremos em nossas mãos o poder de Deus, pois só ele faz cumprir o que diz a Escritura: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu...” (Ecl 3,1).

Contudo, “lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os maus dias...” (Ecl 12,1) – parafraseando, lembra-te de Deus no outono, antes que chegue os dias de inverno – pois o Senhor quer te refazer, por inteiro, sem deixar nada, absolutamente nada, sem ser tocado pela sua graça.

Pe. Ricardo Nunes

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