sábado, 4 de abril de 2020


O que realmente tem valor!






Estamos vivendo uma pandemia mundial e agora “demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados” (Papa Francisco, 27.03.2020), porém, esse tempo tem sido importantíssimo para todos nós, pois estamos redescobrindo o valor de muitas coisas. Vivemos num mundo que gira cada vez mais rápido, estamos todos correndo contra o tempo, multiplicando nossos afazeres, chegando ao ponto de reconhecer que fazemos parte do grande número que forma hoje a “sociedade do cansaço”, deixando-nos mover pela rotina que criamos, mantendo-nos totalmente ocupados, como nos diz Dom José Tolentino: “De repente, a rotina substitui-se à própria vida. Quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Cada dia é simplesmente igual ao anterior” (A mística do instante, p. 17).

              Tudo que antes parecia normal, depois de havermos criado nossa rotina, sabendo muito bem, nos mínimos detalhes, o que devemos fazer cada dia, fomos tomados por uma surpreendente notícia, que havia um “inimigo invisível” nos fazendo prisioneiros dentro de nossas próprias casas, fechados naquele espaço físico que se tornou, simplesmente, para muitos, um lugar de passagem, onde apenas comiam, dormiam, se trocavam, mas não viviam. Os nossos lares foram se tornando lugares pouco frequentados, pois vivendo no corre-corre, quase não encontramos tempo para usufruir do que construímos.

              Num instante aprendemos a dar mais valor para a família, criaram-se espaços de convivência, construíram altares para orações, fazendo-se multiplicar o número de comunidades, as quais chamamos Igreja Doméstica. “O tempo da família, sabemos bem disso, é um tempo complicado e cheio, ocupado e preocupado. É sempre pouco, não basta nunca, há tantas coisas a fazer. Quem tem uma família aprende a resolver uma equação que nem mesmo os grandes matemáticos sabem resolver: dentro das vinte e quatro horas se faz o dobro! Há mães e pais que poderiam vencer o Nobel, por isso. De 24 horas fazem 48: não sei como fazem, mas se movem e o fazem! Há tanto trabalho em família!” (Papa Francisco, Catequese sobre a oração em família, 26.08.2015).

              Aprendemos a dar mais valor à Igreja, à Eucaristia e aos demais sacramentos. Quanta falta sentimos de participar de uma celebração eucarística, de ir à igreja para uma oração comunitária ou mesmo pessoal. Mas quantas vezes passamos em frente à igreja, vemos suas portas abertas como os braços de Deus querendo nos abraçar e não corremos ao seu encontro para ali receber o alento para nossas dores, o perdão para nossos pecados, o sustento que nos faz voltar à vida com mais confiança, pois sabemos que temos um Deus que não se esquece de nenhum de nós. De acordo com o documento 43 da CNBB, cerca de – 70% das comunidades no Brasil não têm acesso à Celebração Eucarística – presidida por um ministro ordenado. Muitas delas se encontram em regiões distantes que não permitem aos fiéis irem a uma igreja. E nós, inúmeras vezes deixamos de ir à missa, seja por relaxamento ou por trabalho, sem nos darmos conta de quanto nos faz falta deixar de comungar, hoje sabemos, infelizmente estamos privados das celebrações públicas, onde os fiéis são orientados a “participarem” ativamente das Missas transmitidas pela TV ou outros meios de comunicação, fazendo naquele momento a sua comunhão espiritual, experiência presente na Igreja, mas pouco compreendida. “Não poder receber a Eucaristia não significa não poder predispor a acolher Jesus com o coração” (Artigo publicado no site vaticannews.va – 02.04.2020). Rezamos, com desejo ardente, que passe logo essa pandemia e nos encontremos para uma grande celebração de ação de graças.

               Vivemos também nesse tempo um olhar mais atento aos profissionais da saúde, tantas vezes incompreendidos e desvalorizados, que não estão medindo esforços para socorrer as vítimas do coronavírus. No Juramento de Hipócrates feito pelos médicos, vemos com quanta grandeza querem viver sua vocação: “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade. Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos. Exercerei a minha arte com consciência e dignidade. A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação” (Versão de 1983). A estes profissionais a nossa eterna gratidão, mas devemos também nos perguntar: quem valor eles têm para a minha vida?

              Se grande é o número daqueles que se dedicam a cuidar das doenças físicas, grande também é o número dos que foram chamados ao cuidado das almas,  trazendo presente os sacerdotes (padres e bispos), religiosos e religiosas que foram vítimas do coronavírus, pois estiveram na linha de frente dessa “guerra” cuidando de seus fiéis. Já é incontável o número de padres e consagrados que fizeram a oferta de suas vidas nestes meses de pandemia, trazendo gravadas no coração as palavras do Apóstolo: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Aprendamos, com isso, a dar mais valor aos sacerdotes, que não são super-homens, mas se desdobram para não deixar faltar o necessário para o seu povo. Valorizemos ainda mais os consagrados, pois não são “funcionários qualificados” para a Igreja, mas pedras vivas nessa construção do Corpo de Cristo.

              Por fim, estamos aprendendo a dar mais valor à vida, vida que não nos pertence, mas é Dom de Deus, “pois antes que no seio materno fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado...” (Jr 1,5). Essas são palavras de amor de um Deus que nos pede a ter mais atenção por si e pelos outros, pois somos Seus, obras nascidas das mãos e do coração de um Deus eternamente apaixonado pela humanidade.

Estamos todos no meio de uma grande tempestade, como nos recordou o Papa Francisco, diante de uma Praça vazia e ao mesmo tempo tão cheia, naquele evento histórico, concedendo-nos a sua Bênção Apostólica – Urbi et Orbi (à Cidade de Roma e ao Mundo): “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente ‘salvadores’, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades [...] Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’”.



 Pe. Ricardo Nunes

2 comentários:

  1. Lindo texto! Bela reflexão. "Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!".

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