O que realmente tem valor!
Estamos vivendo uma pandemia mundial e agora “demo-nos
conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados” (Papa
Francisco, 27.03.2020), porém, esse tempo tem sido importantíssimo para todos
nós, pois estamos redescobrindo o valor de muitas coisas. Vivemos num mundo que
gira cada vez mais rápido, estamos todos correndo contra o tempo, multiplicando
nossos afazeres, chegando ao ponto de reconhecer que fazemos parte do grande número
que forma hoje a “sociedade do cansaço”, deixando-nos mover pela rotina que criamos,
mantendo-nos totalmente ocupados, como nos diz Dom José Tolentino: “De
repente, a rotina substitui-se à própria vida. Quando tudo se torna óbvio e
regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Cada dia é simplesmente igual
ao anterior” (A mística do instante, p. 17).
Tudo que antes parecia normal, depois
de havermos criado nossa rotina, sabendo muito bem, nos mínimos detalhes, o que
devemos fazer cada dia, fomos tomados por uma surpreendente notícia, que havia
um “inimigo invisível” nos fazendo prisioneiros dentro de nossas próprias casas,
fechados naquele espaço físico que se tornou, simplesmente, para muitos, um
lugar de passagem, onde apenas comiam, dormiam, se trocavam, mas não viviam. Os
nossos lares foram se tornando lugares pouco frequentados, pois vivendo no
corre-corre, quase não encontramos tempo para usufruir do que construímos.
Num instante aprendemos a dar mais
valor para a família, criaram-se espaços de convivência, construíram altares
para orações, fazendo-se multiplicar o número de comunidades, as quais chamamos
Igreja Doméstica. “O tempo da família, sabemos bem disso, é um tempo
complicado e cheio, ocupado e preocupado. É sempre pouco, não basta nunca, há
tantas coisas a fazer. Quem tem uma família aprende a resolver uma equação
que nem mesmo os grandes matemáticos sabem resolver: dentro das vinte e quatro
horas se faz o dobro! Há mães e pais que poderiam vencer o Nobel, por isso.
De 24 horas fazem 48: não sei como fazem, mas se movem e o fazem! Há tanto
trabalho em família!” (Papa Francisco, Catequese sobre a oração
em família, 26.08.2015).
Aprendemos a dar mais valor à
Igreja, à Eucaristia e aos demais sacramentos. Quanta falta sentimos de
participar de uma celebração eucarística, de ir à igreja para uma oração
comunitária ou mesmo pessoal. Mas quantas vezes passamos em frente à igreja, vemos
suas portas abertas como os braços de Deus querendo nos abraçar e não corremos
ao seu encontro para ali receber o alento para nossas dores, o perdão para
nossos pecados, o sustento que nos faz voltar à vida com mais confiança, pois
sabemos que temos um Deus que não se esquece de nenhum de nós. De acordo com o
documento 43 da CNBB, cerca de – 70% das comunidades no Brasil não têm acesso à
Celebração Eucarística – presidida por um ministro ordenado. Muitas delas se
encontram em regiões distantes que não permitem aos fiéis irem a uma igreja. E nós,
inúmeras vezes deixamos de ir à missa, seja por relaxamento ou por trabalho, sem nos darmos conta de quanto nos faz falta deixar de comungar, hoje
sabemos, infelizmente estamos privados das celebrações públicas, onde os fiéis
são orientados a “participarem” ativamente das Missas transmitidas pela TV ou
outros meios de comunicação, fazendo naquele momento a sua comunhão espiritual,
experiência presente na Igreja, mas pouco compreendida. “Não poder receber a
Eucaristia não significa não poder predispor a acolher Jesus com o coração”
(Artigo publicado no site vaticannews.va – 02.04.2020). Rezamos, com desejo
ardente, que passe logo essa pandemia e nos encontremos para uma grande
celebração de ação de graças.
Vivemos também nesse tempo um olhar mais
atento aos profissionais da saúde, tantas vezes incompreendidos e
desvalorizados, que não estão medindo esforços para socorrer as vítimas do
coronavírus. No Juramento de Hipócrates feito pelos médicos, vemos com quanta
grandeza querem viver sua vocação: “Prometo solenemente consagrar a minha
vida ao serviço da Humanidade. Darei aos meus Mestres o respeito e o
reconhecimento que lhes são devidos. Exercerei a minha arte com consciência e
dignidade. A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação”
(Versão de 1983). A estes profissionais a nossa eterna gratidão, mas devemos
também nos perguntar: quem valor eles têm para a minha vida?
Se grande é o número daqueles que
se dedicam a cuidar das doenças físicas, grande também é o número dos que foram
chamados ao cuidado das almas, trazendo
presente os sacerdotes (padres e bispos), religiosos e religiosas que foram vítimas
do coronavírus, pois estiveram na linha de frente dessa “guerra” cuidando de
seus fiéis. Já é incontável o número de padres e consagrados que fizeram a
oferta de suas vidas nestes meses de pandemia, trazendo gravadas no coração as palavras
do Apóstolo: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que
falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por seu corpo que é a
Igreja” (Cl 1,24). Aprendamos, com isso, a dar mais valor aos
sacerdotes, que não são super-homens, mas se desdobram para não deixar faltar o
necessário para o seu povo. Valorizemos ainda mais os consagrados, pois não são
“funcionários qualificados” para a Igreja, mas pedras vivas nessa construção do
Corpo de Cristo.
Por fim, estamos aprendendo a dar
mais valor à vida, vida que não nos pertence, mas é Dom de Deus, “pois
antes que no seio materno fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu
nascimento, eu já te havia consagrado...” (Jr 1,5). Essas são palavras de
amor de um Deus que nos pede a ter mais atenção por si e pelos outros, pois
somos Seus, obras nascidas das mãos e do coração de um Deus eternamente
apaixonado pela humanidade.
Estamos todos no meio de uma grande tempestade, como
nos recordou o Papa Francisco, diante de uma Praça vazia e ao mesmo tempo tão
cheia, naquele evento histórico, concedendo-nos a sua Bênção Apostólica – Urbi
et Orbi (à Cidade de Roma e ao Mundo): “A tempestade desmascara a nossa
vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que
construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e
prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre,
sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a
descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma
dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente ‘salvadores’,
incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos,
privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades [...]
Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar
pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face
a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso
planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que
continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos
em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’”.
Pe. Ricardo Nunes

Lindo texto! Bela reflexão. "Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!".
ResponderExcluirMuito bom!Nós faz pensar.
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