ONDE ESTÁ O TEU IRMÃO?
Estamos no tempo
quaresmal, convidados a um exame mais aprofundado da nossa consciência e, assim,
chamados a uma experiência ainda maior da misericórdia de Deus, escolhendo como
tema para este artigo o questionamento de Deus a Caim, logo após ter
assassinado o seu irmão. A causa do assassinato? Inveja.
Deus olhou para Abel e
sua oferta, que era feita de coração e com atitude de gratidão e não, não simplesmente
para mostrar que poderia oferecer o melhor e se vangloriar disso, como diz Santo
Tomás de Aquino: “(Deus) olhou mais
para o oferente que para a sua oferenda, porque a oblação é aceita em virtude
da bondade do oferente...” O invejoso se irrita e se abate diante do
sucesso do outro, mesmo que seja seu irmão. Excita sentimentos de ódio:
corre-se risco de odiar aqueles de que se tem inveja ou ciúme, e, por
consequência, de falar mal deles, de desacreditá-los, caluniar ou de lhes
desejar mal. “A inveja assemelha o homem a Satanás” (Frei Pedro
Sinzig).
Quantas vezes nós
também somos alvos de inveja, pois nos colocamos diante de Deus de coração puro
e realizamos nosso ministério, não se apoiando em méritos pessoais, mas com o
coração cheio de ação de graças, pois reconhecemos a cada dia como São Paulo: “Sou
o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Tantas vezes vemos gerar
disputas dentro do âmbito comunitário, numa luta desenfreada do “quem faz melhor”,
só para serem vistos, porém, devemos nos alertar com o que Jesus nos diz no
Evangelho da Quarta-feira de Cinzas: “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua
direita” (Mt 6,3).
Somos muitas vezes influenciados pelo espírito de competição que toma conta da sociedade
e que reflete dentro da Igreja, criando estruturas apodrecidas por causa desses
males que se infiltram e destroem a essência da vida eclesial.
Será que existe esta
consciência, de que formamos, pelo batismo, uma só família e somos todos irmãos?
Somos todos irmãos, pois um só é o nosso Pai. Aquele com quem Jesus manteve uma
profunda intimidade ao longo de toda a sua vida e que carinhosamente chamava de
‘Abá’ (paizinho). Era encantador o modo como Jesus se dirigia ao Pai, tanto
que despertou no coração de seus discípulos o desejo de rezar como ele rezava e
ensina o ‘Pai-nosso’, que era, simplesmente, a oração do coração de Jesus. Uma oração
que nos faria muito bem meditar ao longo da Quaresma, pois nos faz experimentar
sempre mais o amor de Deus e se abrir para amar mais os irmãos, com um olhar de
compaixão e misericórdia, como nos propõe a Campanha da Fraternidade – 2020: “Para
uma verdadeira mudança de vida, precisamos aprender a configurar nosso olhar o
de Jesus, com o olhar do Bom Samaritano” (Texto Base, n. 26).
A resposta de Caim a
Deus é bem dura e insensível: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?” a
inveja, o ciúme e o ódio, corroeram o coração de Caim, tornando-o insensível a
dor e a morte de seu irmão, levando-o a indiferença em relação com alguém que
era sangue do seu sangue. Tudo isso sufocou o amor, que é o elo que une afetiva
e efetivamente as pessoas. Amar significa saber onde estão aqueles que precisam
de cuidado e proteção, aqueles que estão nas vias marginais da sociedade, mas
também do nosso coração. “Pergunte a si mesmo se o seu coração não endureceu,
se não se tornou gelo. (...) A misericórdia, diante de uma vida humana em situação
de necessidade, é a verdadeira face do amor” (Papa Francisco).
Somos todos irmãos, mas
não somos todos iguais, e, o caminho para a fraternidade passa pelo
reconhecimento da diversidade. Caim não aceitou ser diferente do irmão e Abel
não se livrou da ira de Caim, mas que Deus nos livre dos “Cains” de hoje, que
tantas vezes querem, com sua ira, nos devorar.
Por fim, caro leitor,
medite sobre suas relações, primeiro com Deus, sendo ela base para o seu
relacionamento com todos e abra seus ouvidos e coração, pois o Senhor também quer
lhe perguntar: “Onde está o teu irmão?”
Pe. Ricardo Nunes

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