segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020


Leis para quem?




Há na Igreja um grande número de fiéis que questionam sobre a aplicação das leis, sobretudo, em algumas questões que não pretendem resolvê-las e, portanto, querem que a Igreja se adeque ao seu estado de vida.

Pelo batismo somos incorporados a Cristo, constituindo, assim, o Povo de Deus, onde todos devem se empenhar para cumprir a missão própria que o Senhor nos confiou (cf. Cân 204). Vemos, com isso, que fazemos parte de um único corpo, onde Cristo é a cabeça, portanto, devemos nos deixar conduzir por Ele, uma vez que decidimos livremente permanecer unidos a ele.

Uma vez batizados na Igreja Católica, estamos sujeitos à lei que nela vigora, para que sejam setas a nos apontar o caminho da salvação, como expressa o último cânon do Código de Direito Canônico: “a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema” (Cân. 1752). Aqui sempre se apresenta um ponto de contestação quando não há aprofundamento na doutrina da Igreja a que pertence. Muitos cristãos católicos desconhecem os pilares que sustentam a vida e missão da Igreja Católica e ignoram sua história em vista de soluções imediatas para seus problemas. Três pilares nos sustentam, que são: Sagrada Escritura: as escrituras sagradas ou Bíblia como conhecemos constituem o pilar da revelação direta e histórica da vida de Cristo; a Tradição onde temos um dos pilares mais fortes e inesgotáveis, ela nos trouxe verdades de fé a complementar a bíblia, através dos costumes e escritos dos primeiros cristãos; no Magistério temos a autoridade transferida aos apóstolos e ao Primado petrino, o Papa.

Se lemos atentamente a Palavra de Deus, veremos que até mesmo Jesus esteve sujeito a Lei, embora alguns o acusassem dizendo que ele veio para aboli-la, ao que ele responde que veio para lhe dar pleno cumprimento.

A liturgia da Festa da Apresentação do Senhor nos mostrou que também os pais de Jesus são cumpridores da Lei. Nem Maria nem Jesus tinham necessidade de cumprir os ritos se olhamos pela ótica da graça que agia na vida deles: Maria concebida sem pecado e Jesus o Ungido do Pai. O rito prescrito era que a mãe, após o parto, precisava passar por um rito de purificação e Maria foi como todas as outras mulheres judias, pois, embora fosse ela “bendita entre todas as mulheres”, nunca lhe atribuiu regalias por ser a mãe do Filho de Deus. Cumpria fielmente suas obrigações, com piedade e devoção, obedecendo a Deus e cumprindo a lei.

Jesus, o consagrado-ungido do Pai, não tinha “necessidade” de ser apresentado no Templo, pois estava prescrito “que todo primogênito deveria ser consagrado a Deus”, porém, foi levado para se escrituras como disse o profeta Malaquias: “logo chegará ao seu templo o Dominador” (Mal 3,1) e também mostrar que ele, mesmo sendo Filho de Deus, nascendo segundo a carne estava sujeito a lei.

Portanto, devemos, por estes exemplos, refletir sobre a razão do nosso “estar na Igreja”, de ter recebido os sacramentos, de me “tornar” membro de uma comunidade cristã e, mesmo assim, não me sentir Igreja, querendo da Igreja apenas os direitos, mas sem cumprir suas obrigações. Se todos que reclamam direitos estivessem comprometidos com a construção do Reino, o anúncio do Evangelho já tinha chegado a muitas outras pessoas que ainda não ouviram falar de Jesus. Quantas pessoas buscam privilégios na Igreja, relaxamento das leis ou o famoso “jeitinho”? Ninguém é obrigado a estar na Igreja, mas uma vez que nela entramos pela porta da frente que é o batismo, devemos buscar conhecer suas estruturas, suas normas e preceitos, fazendo-se assim, um membro vivo de corpo de Cristo, aplicando as leis não só aos outros, mas a nós mesmos.



Pe. Ricardo Nunes


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