O DILEMA DAS TRANSFERÊNCIAS
Sempre que se propõe
transferências de padres e diáconos, começam os questionamentos acerca da
necessidade dessa ação, sobretudo apresentando os resultados do bom trabalho
que está sendo realizado e, por isso, mereciam ficar um pouco mais naquela
paróquia, onde todos já estão “acostumados” com seu trabalho. Aqui apresento um
primeiro e grande problema, ou seja, o acostumar. Corremos o risco de cair no
comodismo e as ações pastorais não evoluírem como deveriam, pois criamos um
ritmo de trabalho que nos faz pensar que não precisa mudar mais nada, apenas
manter o que já está planejado ou repetir ações anteriores que deram certo. Mas
se vivemos em constante mudança, se a humanidade evolui, vendo que o que somos
hoje não é o que éramos ontem, qual a razão de querer na vida pastoral
sustentar a bandeira do “vamos deixar como está” ou “time que está ganhando não
se mexe”?
Outro ponto importante
a se refletir é o afeto, a proximidade que se cria entre o povo e o padre ou
diácono, porém, devemos fugir do perigo dos relacionamentos possessivos, como
nos diz Dom José Carlos (Bispo de Divinópolis): “Normalmente, e isso é humano e bom, criam-se amizades fortes
e importantes com o padre durante o tempo, curto ou longo, de permanência, mas
não se pode esquecer que o padre não é “seu” ou “nosso”, mas é da Igreja, da
Diocese e colaborador do bispo. Isso não é arbitrário, é da natureza da nossa
vocação sacerdotal e episcopal”.
A Igreja tem suas leis e estas devem ser aplicadas, assim,
vemos que o Código de Direito Canônico apresenta sobre o exercício ministerial:
“É necessário que o pároco tenha estabilidade e, portanto, deve ser nomeado por
tempo indeterminado; só pode ser nomeado pelo Bispo diocesano, por tempo
determinado, se isto for admitido por decreto pela Conferência dos Bispos”
(cân. 522). Embora goze de estabilidade, isso não significa que, numa
necessidade, seja pedido que o padre assuma o ofício de pároco ou outro ofício
numa nova paróquia.
Recordo, ainda, que as transferências estão no centro da
missionariedade da Igreja, que nos convida a viver o cuidado do seu todo, não
apenas com uma parcela especifica do Povo de Deus, embora sejamos destinados
por ofício a cuidar de uma paróquia, temos quer ter a consciência de Jesus que
disse: “Também é necessário que eu anuncie a outras cidades o evangelho do reino
de Deus; porque para isso fui enviado” (Lc 4,43). A messe continua sendo grande
e necessitada de muitos e bons trabalhadores, onde cada um que acolhe o convite
de Jesus para o ministério ordenado deve-se reconhecer como trabalhador dessa
messe que não está num endereço específico, mas que chega aos confins do mundo.
Por fim, precisamos entender que ninguém é insubstituível,
embora seja muito bom o trabalho que estejamos realizando, outros farão outras
coisas ou até as mesmas, mas de outro jeito. Porém, precisamos entender que
tudo passa. Passam até mesmo afetos que achávamos que seriam eternos, ficando
para trás cargos e títulos, permanecendo apenas os bons exemplos e o testemunho
de amor a Deus e à Igreja. Termino com uma frase do Papa Francisco que deve nos
ajudar, sobretudo, numa reflexão pessoal: “É preciso visitar os cemitérios para
ver os nomes de tantas pessoas que se consideravam imunes e indispensáveis”
(Discurso aos prelados da Cúria, dezembro de 2014).
Pe. Ricardo Nunes
(Artigo publicado na Revista Caminhando - Diocese de Nova Iguaçu, fev.2020)

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