quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020


ONDE ESTÁ O TEU IRMÃO?

 

Estamos no tempo quaresmal, convidados a um exame mais aprofundado da nossa consciência e, assim, chamados a uma experiência ainda maior da misericórdia de Deus, escolhendo como tema para este artigo o questionamento de Deus a Caim, logo após ter assassinado o seu irmão. A causa do assassinato? Inveja. 

Deus olhou para Abel e sua oferta, que era feita de coração e com atitude de gratidão e não, não simplesmente para mostrar que poderia oferecer o melhor e se vangloriar disso, como diz Santo Tomás de Aquino: “(Deus) olhou mais para o oferente que para a sua oferenda, porque a oblação é aceita em virtude da bondade do oferente...” O invejoso se irrita e se abate diante do sucesso do outro, mesmo que seja seu irmão. Excita sentimentos de ódio: corre-se risco de odiar aqueles de que se tem inveja ou ciúme, e, por consequência, de falar mal deles, de desacreditá-los, caluniar ou de lhes desejar mal. “A inveja assemelha o homem a Satanás” (Frei Pedro Sinzig).

Quantas vezes nós também somos alvos de inveja, pois nos colocamos diante de Deus de coração puro e realizamos nosso ministério, não se apoiando em méritos pessoais, mas com o coração cheio de ação de graças, pois reconhecemos a cada dia como São Paulo: “Sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Tantas vezes vemos gerar disputas dentro do âmbito comunitário, numa luta desenfreada do “quem faz melhor”, só para serem vistos, porém, devemos nos alertar com o que Jesus nos diz no Evangelho da Quarta-feira de Cinzas: “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mt 6,3). Somos muitas vezes influenciados pelo espírito de competição que toma conta da sociedade e que reflete dentro da Igreja, criando estruturas apodrecidas por causa desses males que se infiltram e destroem a essência da vida eclesial.

Será que existe esta consciência, de que formamos, pelo batismo, uma só família e somos todos irmãos? Somos todos irmãos, pois um só é o nosso Pai. Aquele com quem Jesus manteve uma profunda intimidade ao longo de toda a sua vida e que carinhosamente chamava de ‘Abá’ (paizinho). Era encantador o modo como Jesus se dirigia ao Pai, tanto que despertou no coração de seus discípulos o desejo de rezar como ele rezava e ensina o ‘Pai-nosso’, que era, simplesmente, a oração do coração de Jesus. Uma oração que nos faria muito bem meditar ao longo da Quaresma, pois nos faz experimentar sempre mais o amor de Deus e se abrir para amar mais os irmãos, com um olhar de compaixão e misericórdia, como nos propõe a Campanha da Fraternidade – 2020: “Para uma verdadeira mudança de vida, precisamos aprender a configurar nosso olhar o de Jesus, com o olhar do Bom Samaritano” (Texto Base, n. 26).

A resposta de Caim a Deus é bem dura e insensível: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?” a inveja, o ciúme e o ódio, corroeram o coração de Caim, tornando-o insensível a dor e a morte de seu irmão, levando-o a indiferença em relação com alguém que era sangue do seu sangue. Tudo isso sufocou o amor, que é o elo que une afetiva e efetivamente as pessoas. Amar significa saber onde estão aqueles que precisam de cuidado e proteção, aqueles que estão nas vias marginais da sociedade, mas também do nosso coração. “Pergunte a si mesmo se o seu coração não endureceu, se não se tornou gelo. (...) A misericórdia, diante de uma vida humana em situação de necessidade, é a verdadeira face do amor” (Papa Francisco).

Somos todos irmãos, mas não somos todos iguais, e, o caminho para a fraternidade passa pelo reconhecimento da diversidade. Caim não aceitou ser diferente do irmão e Abel não se livrou da ira de Caim, mas que Deus nos livre dos “Cains” de hoje, que tantas vezes querem, com sua ira, nos devorar.

Por fim, caro leitor, medite sobre suas relações, primeiro com Deus, sendo ela base para o seu relacionamento com todos e abra seus ouvidos e coração, pois o Senhor também quer lhe perguntar: “Onde está o teu irmão?”



Pe. Ricardo Nunes


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020




O DILEMA DAS TRANSFERÊNCIAS



Sempre que se propõe transferências de padres e diáconos, começam os questionamentos acerca da necessidade dessa ação, sobretudo apresentando os resultados do bom trabalho que está sendo realizado e, por isso, mereciam ficar um pouco mais naquela paróquia, onde todos já estão “acostumados” com seu trabalho. Aqui apresento um primeiro e grande problema, ou seja, o acostumar. Corremos o risco de cair no comodismo e as ações pastorais não evoluírem como deveriam, pois criamos um ritmo de trabalho que nos faz pensar que não precisa mudar mais nada, apenas manter o que já está planejado ou repetir ações anteriores que deram certo. Mas se vivemos em constante mudança, se a humanidade evolui, vendo que o que somos hoje não é o que éramos ontem, qual a razão de querer na vida pastoral sustentar a bandeira do “vamos deixar como está” ou “time que está ganhando não se mexe”?


Outro ponto importante a se refletir é o afeto, a proximidade que se cria entre o povo e o padre ou diácono, porém, devemos fugir do perigo dos relacionamentos possessivos, como nos diz Dom José Carlos (Bispo de Divinópolis): “Normalmente, e isso é humano e bom, criam-se amizades fortes e importantes com o padre durante o tempo, curto ou longo, de permanência, mas não se pode esquecer que o padre não é “seu” ou “nosso”, mas é da Igreja, da Diocese e colaborador do bispo. Isso não é arbitrário, é da natureza da nossa vocação sacerdotal e episcopal”.


A Igreja tem suas leis e estas devem ser aplicadas, assim, vemos que o Código de Direito Canônico apresenta sobre o exercício ministerial: “É necessário que o pároco tenha estabilidade e, portanto, deve ser nomeado por tempo indeterminado; só pode ser nomeado pelo Bispo diocesano, por tempo determinado, se isto for admitido por decreto pela Conferência dos Bispos” (cân. 522). Embora goze de estabilidade, isso não significa que, numa necessidade, seja pedido que o padre assuma o ofício de pároco ou outro ofício numa nova paróquia.


Recordo, ainda, que as transferências estão no centro da missionariedade da Igreja, que nos convida a viver o cuidado do seu todo, não apenas com uma parcela especifica do Povo de Deus, embora sejamos destinados por ofício a cuidar de uma paróquia, temos quer ter a consciência de Jesus que disse: “Também é necessário que eu anuncie a outras cidades o evangelho do reino de Deus; porque para isso fui enviado” (Lc 4,43). A messe continua sendo grande e necessitada de muitos e bons trabalhadores, onde cada um que acolhe o convite de Jesus para o ministério ordenado deve-se reconhecer como trabalhador dessa messe que não está num endereço específico, mas que chega aos confins do mundo.


Por fim, precisamos entender que ninguém é insubstituível, embora seja muito bom o trabalho que estejamos realizando, outros farão outras coisas ou até as mesmas, mas de outro jeito. Porém, precisamos entender que tudo passa. Passam até mesmo afetos que achávamos que seriam eternos, ficando para trás cargos e títulos, permanecendo apenas os bons exemplos e o testemunho de amor a Deus e à Igreja. Termino com uma frase do Papa Francisco que deve nos ajudar, sobretudo, numa reflexão pessoal: “É preciso visitar os cemitérios para ver os nomes de tantas pessoas que se consideravam imunes e indispensáveis” (Discurso aos prelados da Cúria, dezembro de 2014). 

Pe. Ricardo Nunes
(Artigo publicado na Revista Caminhando - Diocese de Nova Iguaçu, fev.2020)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020


Leis para quem?




Há na Igreja um grande número de fiéis que questionam sobre a aplicação das leis, sobretudo, em algumas questões que não pretendem resolvê-las e, portanto, querem que a Igreja se adeque ao seu estado de vida.

Pelo batismo somos incorporados a Cristo, constituindo, assim, o Povo de Deus, onde todos devem se empenhar para cumprir a missão própria que o Senhor nos confiou (cf. Cân 204). Vemos, com isso, que fazemos parte de um único corpo, onde Cristo é a cabeça, portanto, devemos nos deixar conduzir por Ele, uma vez que decidimos livremente permanecer unidos a ele.

Uma vez batizados na Igreja Católica, estamos sujeitos à lei que nela vigora, para que sejam setas a nos apontar o caminho da salvação, como expressa o último cânon do Código de Direito Canônico: “a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema” (Cân. 1752). Aqui sempre se apresenta um ponto de contestação quando não há aprofundamento na doutrina da Igreja a que pertence. Muitos cristãos católicos desconhecem os pilares que sustentam a vida e missão da Igreja Católica e ignoram sua história em vista de soluções imediatas para seus problemas. Três pilares nos sustentam, que são: Sagrada Escritura: as escrituras sagradas ou Bíblia como conhecemos constituem o pilar da revelação direta e histórica da vida de Cristo; a Tradição onde temos um dos pilares mais fortes e inesgotáveis, ela nos trouxe verdades de fé a complementar a bíblia, através dos costumes e escritos dos primeiros cristãos; no Magistério temos a autoridade transferida aos apóstolos e ao Primado petrino, o Papa.

Se lemos atentamente a Palavra de Deus, veremos que até mesmo Jesus esteve sujeito a Lei, embora alguns o acusassem dizendo que ele veio para aboli-la, ao que ele responde que veio para lhe dar pleno cumprimento.

A liturgia da Festa da Apresentação do Senhor nos mostrou que também os pais de Jesus são cumpridores da Lei. Nem Maria nem Jesus tinham necessidade de cumprir os ritos se olhamos pela ótica da graça que agia na vida deles: Maria concebida sem pecado e Jesus o Ungido do Pai. O rito prescrito era que a mãe, após o parto, precisava passar por um rito de purificação e Maria foi como todas as outras mulheres judias, pois, embora fosse ela “bendita entre todas as mulheres”, nunca lhe atribuiu regalias por ser a mãe do Filho de Deus. Cumpria fielmente suas obrigações, com piedade e devoção, obedecendo a Deus e cumprindo a lei.

Jesus, o consagrado-ungido do Pai, não tinha “necessidade” de ser apresentado no Templo, pois estava prescrito “que todo primogênito deveria ser consagrado a Deus”, porém, foi levado para se escrituras como disse o profeta Malaquias: “logo chegará ao seu templo o Dominador” (Mal 3,1) e também mostrar que ele, mesmo sendo Filho de Deus, nascendo segundo a carne estava sujeito a lei.

Portanto, devemos, por estes exemplos, refletir sobre a razão do nosso “estar na Igreja”, de ter recebido os sacramentos, de me “tornar” membro de uma comunidade cristã e, mesmo assim, não me sentir Igreja, querendo da Igreja apenas os direitos, mas sem cumprir suas obrigações. Se todos que reclamam direitos estivessem comprometidos com a construção do Reino, o anúncio do Evangelho já tinha chegado a muitas outras pessoas que ainda não ouviram falar de Jesus. Quantas pessoas buscam privilégios na Igreja, relaxamento das leis ou o famoso “jeitinho”? Ninguém é obrigado a estar na Igreja, mas uma vez que nela entramos pela porta da frente que é o batismo, devemos buscar conhecer suas estruturas, suas normas e preceitos, fazendo-se assim, um membro vivo de corpo de Cristo, aplicando as leis não só aos outros, mas a nós mesmos.



Pe. Ricardo Nunes


sábado, 1 de fevereiro de 2020


Deus nos conduz pelos caminhos mais longos!





Toda história da salvação está repleta de exemplos que nos falam de um Deus próximo, que cuida, conduz e orienta seu povo, apesar de seus erros e dureza de coração, como nos diz o profeta: "Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor" (Jr 31,3). A partir dessa proximidade amorosa de Deus, somos chamados a viver essa mesma dinâmica em nossa vida, pois, criados a sua imagem e semelhança, devemos deixar refletir por nossa vida este amor que nos penetra e nos preenche. 

Para que isto aconteça, precisamos aceitar sua condução, mesmo que seja por caminhos longos. Deus não gosta de encurtar caminhos e usa de algumas ocasiões da vida para mostrar isso, como lemos nas páginas sagradas sobre a libertação do povo que vivia há muitos séculos escravo no Egito.

Quando o povo, conduzido por Deus através de Moisés, saiu do Egito precisava deixar para trás muitas coisas, sobretudo a saudade dos tempos que viveram escravos e oprimidos. Saíram e poderiam percorrer um caminho bem curto até a terra prometida, mas Deus fez que percorressem um caminho longo, que durou 40 anos, para que se libertassem verdadeiramente de tudo o que os escravizavam. 
No início daquela caminhada todos tinham uma certeza: haviam saído do Egito, porém, o Egito ainda precisa sair de dentro deles. Quantas vezes deixamos para trás os nossos “egitos”, tentamos demonstrar isso às pessoas e convencê-las de quem vivemos uma nova etapa da vida, mas sabemos que muitas coisas do passado ainda fazem parte de nossa história, vivendo de aparências e, por vezes, bastante incoerentes com o que Deus espera de nós. É difícil se desfazer de uma história, apagar marcas do passado e dar um impulso novo, pois estamos machucados, fragilizados, carregando muitos traumas, que somente Deus pode curar e, verdadeiramente, nos libertar.

Somos chamados a uma sincera conversão de vida, mudar nossos pensamentos e atitudes, viver a coerência cristã, mas sem pressa, pois Deus tem o seu jeito de nos ajudar e usa de caminhos alongados, até mesmo nos fazendo visitar nosso passado para que, pouco a pouco, cure nossas feridas. Compreendemos que Deus tem um tempo para cada coisa, sem pressa, sem atropelos, sustentados por suas mãos, mãos de um pai que nos apoia e conduz, mãos de mãe que nos acaricia e enxuga nossas lágrimas.

De onde Deus te tirou? Onde era seu Egito e qual foi a razão que te levou até lá? Quanto tempo Deus te tem feito caminhar com Ele para que aconteça sua libertação? Essas perguntas são fundamentais para dar um sentido novo para a vida. Quantos testemunhos bonitos temos na Igreja, de pessoas que se permitiram dar o primeiro passo que é o SAIR, vindo depois o deixar-se CONDUZIR pelo caminho que trilhado para nós, deixando para trás o que antes nos prendia para se LIBERTAR de toda forma de escravidão.

Caro leitor, como alguém já disse: desertos não duram para sempre. São apenas lugares de passagem para se chegar ao que foi reservado e prometido por Deus, não é no deserto que Ele nos quer. Levante a cabeça e olhe para frente, o que Deus tem para ti está muito próximo, não desanime e não desista de caminhar, por mais longo que seja o caminho.

Pe. Ricardo Nunes

AJUDAR A IGREJA EM SUAS NECESSIDADES Além dos Mandamentos da Lei de Deus, existem para os fiéis católicos os Mandamentos da Ig...