DOM DAS LÁGRIMAS
Em meio ao caos duma pandemia, privados de tantas
coisas, como encontros familiares e religiosos (missas e demais propostas
oracionais), vemos pessoas profundamente abaladas, sofrendo imensamente por
estarem “obrigadas” – por um vírus – a viverem o distanciamento social, acarretando
(ou aumentando) doenças emocionais como ansiedade e depressão, vemos surgir “dentro”
da própria Igreja, falas condenatórias, julgando pessoas que se tornam capazes
de chorar na presença de Deus, estando elas nos “eventos da igreja”, como cita um
artigo que está ganhando popularidade nas redes sociais, sobretudo entre os padres
e religiosos.
No artigo se apresenta, primeiramente, o choro como “sinal
de que uma pessoa foi intimamente tocada por Deus”, porém, logo abaixo cita o
mesmo artigo: “como o diabo tem a capacidade de perverter e macaquear todas as
coisas, ele tem usado e abusado do chororô para enganar muitos católicos”.
A CNBB lançou, para este momento que estamos vivendo,
um projeto que tem como tema: “É tempo de cuidar!”, sim, precisamos cuidar,
fazendo um profundo discernimento caso por caso, percebendo que isso pode levar
sim a uma histeria coletiva, mas sem generalizar. Se isso acontece nas nossas comunidades
eclesiais, ao invés de julgar como uma possível “ação do diabo”, o remédio indicado
é estender as mãos e ajudar aquela pessoa a encontrar, dentro de si, quais são
as motivações que a levaram a derramar suas lágrimas naquele “evento” da Igreja
(seja uma Missa, uma Adoração Eucarística, um retiro, etc.). Talvez, aquele
lugar fosse o mais seguro, longe de conhecidos, que ela encontrou para poder
chorar suas dores, suas mazelas, seus pecados. Será que depois dessa
pandemia não teremos muitos cristãos chorando em nossas celebrações, sendo
momento de reencontro com Cristo na Eucaristia e nos irmãos? Será que estarão
macaqueando, movidos pelo diabo?
Para alguns que desconhecem essa informação, o dom
das lágrimas é um dos mais antigos da Igreja Primitiva e se olharmos
calmamente a Sagrada Escritura veremos inúmeros exemplos, sendo este dom um
caminho que leva o pecador a ser lavado de seus pecados, impulsionando a uma verdadeira
e sincera conversão, alcançando consolação.
Vejamos, portanto, algumas citações:
·
“Bem aventurados
os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4);
·
“Ele enxugará
toda lágrima de seus olhos...” (Ap 21,4);
·
“Tempo de chorar
e tempo de rir” (Ecl 3,4);
·
“Digo que
certamente vocês chorarão e se lamentarão, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,9);
·
“Alegrem-se com
os que se alegram; chorem com os que choram” (Rm 12,15);
Esses são alguns, como disse acima, de inúmeros outros
exemplos, como temos, ainda, a cura de Ezequiel que, ao se colocar em oração na
presença de Deus “chorava abundantemente” (Is 38,3).
O dom das lágrimas, se não o temos, podemos e devemos
pedir a Deus, como ensina São Simeão: “Devemos começar nossa oração
implorando de Deus o dom das lágrimas”, e ao receber esse dom, não apenas
os olhos choram, mas também o coração, que tantas vezes machucado, encontra
numa celebração ou outros encontros de oração, ajudados pela Palavra de Deus a
oportunidade de colocar para fora suas dores e ressentimentos. Por mais envolventes
que sejas as palavras do pregador, é a Palavra de Deus que penetra o coração
das pessoas.
Numa homilia na casa Santa Marta no dia 25 de maio de
2018, o Papa Francisco diz: “Trouxeram de Siracusa a relíquia das lágrimas de
Nossa Senhora. Hoje estão aqui, e rezemos a Nossa Senhora para que nos conceda
a nós e também à humanidade, que dele precisa, o dom das lágrimas
para que possamos chorar: pelos nossos pecados e pelas tantas calamidades que
fazem sofrer o povo de Deus e os filhos de Deus”. O Santo Padre reconhece
que as chorar é dom de Deus, o dom das lagrimas é um presente de Deus.
Como pastores zelosos do Povo de Deus, precisamos ir ao
encontro e tocar a vida das pessoas “que choram nos eventos da Igreja”, talvez
nem seja fruto da intimidade com Deus, da escuta da Palavra e nem mesmo ação do
diabo, mas simplesmente por desgosto de estar ali num ambiente frio, dividido,
sem ação do Espírito, ali onde deveria ser lugar de encontro com Deus,
anunciado pela Palavra e mostrado vivo e real na Eucaristia, levando as pessoas
a reconhecerem – como os discípulos de Emaús – “não ardia o nosso coração...?”
Bem-aventurados (felizes) os que choram! “Penso em muitas pessoas que choram: pessoas
isoladas, pessoas em quarentena, os anciãos sós, pessoas internadas e as
pessoas em terapia, os pais que veem que, como falta o salário, não conseguirão
dar de comer aos filhos. Muitas pessoas choram. Também nós, em nosso coração,
as acompanhamos. E não nos fará mal chorar um pouco com o pranto do Senhor
por todo o seu povo” (Papa Francisco, 29 de março de 2020). Se você estiver
sozinho em casa, chore; se estiver no transporte público, chore; se estiver num
“evento da igreja”, chore; a ninguém pode se privar desse direito, pois é dom
de Deus.
Peçamos a graça de chorar!
Pe. Ricardo Nunes

Que texto lindo!
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