terça-feira, 21 de abril de 2020


DOM DAS LÁGRIMAS





Em meio ao caos duma pandemia, privados de tantas coisas, como encontros familiares e religiosos (missas e demais propostas oracionais), vemos pessoas profundamente abaladas, sofrendo imensamente por estarem “obrigadas” – por um vírus – a viverem o distanciamento social, acarretando (ou aumentando) doenças emocionais como ansiedade e depressão, vemos surgir “dentro” da própria Igreja, falas condenatórias, julgando pessoas que se tornam capazes de chorar na presença de Deus, estando elas nos “eventos da igreja”, como cita um artigo que está ganhando popularidade nas redes sociais, sobretudo entre os padres e religiosos.

No artigo se apresenta, primeiramente, o choro como “sinal de que uma pessoa foi intimamente tocada por Deus”, porém, logo abaixo cita o mesmo artigo: “como o diabo tem a capacidade de perverter e macaquear todas as coisas, ele tem usado e abusado do chororô para enganar muitos católicos”.

A CNBB lançou, para este momento que estamos vivendo, um projeto que tem como tema: “É tempo de cuidar!”, sim, precisamos cuidar, fazendo um profundo discernimento caso por caso, percebendo que isso pode levar sim a uma histeria coletiva, mas sem generalizar. Se isso acontece nas nossas comunidades eclesiais, ao invés de julgar como uma possível “ação do diabo”, o remédio indicado é estender as mãos e ajudar aquela pessoa a encontrar, dentro de si, quais são as motivações que a levaram a derramar suas lágrimas naquele “evento” da Igreja (seja uma Missa, uma Adoração Eucarística, um retiro, etc.). Talvez, aquele lugar fosse o mais seguro, longe de conhecidos, que ela encontrou para poder chorar suas dores, suas mazelas, seus pecados. Será que depois dessa pandemia não teremos muitos cristãos chorando em nossas celebrações, sendo momento de reencontro com Cristo na Eucaristia e nos irmãos? Será que estarão macaqueando, movidos pelo diabo?

Para alguns que desconhecem essa informação, o dom das lágrimas é um dos mais antigos da Igreja Primitiva e se olharmos calmamente a Sagrada Escritura veremos inúmeros exemplos, sendo este dom um caminho que leva o pecador a ser lavado de seus pecados, impulsionando a uma verdadeira e sincera conversão, alcançando consolação.

Vejamos, portanto, algumas citações:

·       “Bem aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4);

·       “Ele enxugará toda lágrima de seus olhos...” (Ap 21,4);

·       “Tempo de chorar e tempo de rir” (Ecl 3,4);

·       “Digo que certamente vocês chorarão e se lamentarão, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,9);

·       “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram” (Rm 12,15);

Esses são alguns, como disse acima, de inúmeros outros exemplos, como temos, ainda, a cura de Ezequiel que, ao se colocar em oração na presença de Deus “chorava abundantemente” (Is 38,3).

O dom das lágrimas, se não o temos, podemos e devemos pedir a Deus, como ensina São Simeão: “Devemos começar nossa oração implorando de Deus o dom das lágrimas”, e ao receber esse dom, não apenas os olhos choram, mas também o coração, que tantas vezes machucado, encontra numa celebração ou outros encontros de oração, ajudados pela Palavra de Deus a oportunidade de colocar para fora suas dores e ressentimentos. Por mais envolventes que sejas as palavras do pregador, é a Palavra de Deus que penetra o coração das pessoas.

Numa homilia na casa Santa Marta no dia 25 de maio de 2018, o Papa Francisco diz: “Trouxeram de Siracusa a relíquia das lágrimas de Nossa Senhora. Hoje estão aqui, e rezemos a Nossa Senhora para que nos conceda a nós e também à humanidade, que dele precisa, o dom das lágrimas para que possamos chorar: pelos nossos pecados e pelas tantas calamidades que fazem sofrer o povo de Deus e os filhos de Deus”. O Santo Padre reconhece que as chorar é dom de Deus, o dom das lagrimas é um presente de Deus.

Como pastores zelosos do Povo de Deus, precisamos ir ao encontro e tocar a vida das pessoas “que choram nos eventos da Igreja”, talvez nem seja fruto da intimidade com Deus, da escuta da Palavra e nem mesmo ação do diabo, mas simplesmente por desgosto de estar ali num ambiente frio, dividido, sem ação do Espírito, ali onde deveria ser lugar de encontro com Deus, anunciado pela Palavra e mostrado vivo e real na Eucaristia, levando as pessoas a reconhecerem – como os discípulos de Emaús – “não ardia o nosso coração...?”

Bem-aventurados (felizes) os que choram! “Penso em muitas pessoas que choram: pessoas isoladas, pessoas em quarentena, os anciãos sós, pessoas internadas e as pessoas em terapia, os pais que veem que, como falta o salário, não conseguirão dar de comer aos filhos. Muitas pessoas choram. Também nós, em nosso coração, as acompanhamos. E não nos fará mal chorar um pouco com o pranto do Senhor por todo o seu povo” (Papa Francisco, 29 de março de 2020). Se você estiver sozinho em casa, chore; se estiver no transporte público, chore; se estiver num “evento da igreja”, chore; a ninguém pode se privar desse direito, pois é dom de Deus.


Peçamos a graça de chorar!



Pe. Ricardo Nunes

Um comentário:

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