sexta-feira, 15 de maio de 2020



AJUDAR A IGREJA EM SUAS NECESSIDADES





Além dos Mandamentos da Lei de Deus, existem para os fiéis católicos os Mandamentos da Igreja, prescritos no Catecismo da Igreja Católica, que diz: “O caráter obrigatório dessas leis positivas promulgadas pelas autoridades pastorais tem como fim garantir aos fiéis o mínimo indispensável no espírito de oração e no esforço moral, no crescimento do amor de Deus e do próximo” (CIC, 2041).

Aqui não iremos tratar de todos, mas apenas do quinto mandamento que “recorda aos fiéis que devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades” (CIC, 2045). Vemos que o Catecismo usa a palavra recordar, ou seja, é algo que nos foi transmitido de alguma forma, mas que pode cair num esquecimento, levando a deixar de lado um compromisso essencial com a Igreja, uma vez que dela fazemos parte pelo Batismo, formando um só corpo bem unidos no Senhor.

Nesse Tempo Pascal, fazendo a caminhada com a comunidade do Ressuscitado, vemos um testemunho muito bonito que era marca do compromisso da vida missionária: “Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um” (cf. At 2,44-45). A evangelização não se dá apenas com o anúncio verbal da Palavra, mas também pela solidariedade fraterna, o que está na essência da missão da Igreja, pois, guiados por suas leis vemos: “Os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros” (Cân. 222 §1).

Há muitas maneiras de fazer essa oferta material, porém, uma das principais é o dízimo, prática que acompanha nossa história desde o Antigo Testamento (cf. Lv 27,30), quando o Povo de Deus ofertava a décima parte dos rendimentos ou das colheitas e rebanhos, como forma de agradecimento por tudo aquilo que haviam recebido do Senhor, tornando visível a comunhão com Deus, que gratuita e generosamente, lhes oferecia seus dons.

Outra dimensão importante é o que chamamos de justiça social, ou seja, “(os fiéis) têm também a obrigação de promover a justiça social e, lembrados do preceito do Senhor, socorrer os pobres com as próprias rendas” (Cân. 222, §2). Nosso olhar se volta novamente para os Atos do Apóstolos, quando nos diz, que “nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e, tudo o que arrecadavam repartiam de acordo com a necessidade de cada um” (cf. At 4,34). Portanto, a justiça social se realiza quando damos o que o outro necessita, não apenas dando o que nos sobra, fazendo dessa oferta uma ação de graças, pois, não guardando nada para si, recebemos os tesouros mais preciosos que são a graça, o amor, a justiça e a misericórdia de Deus.

Nesse tempo de pandemia, temos visto muitos gestos de solidariedade, seja com o dízimo ou outras ofertas em nossas comunidades paroquias, seja também a partilha de mantimentos para socorrer tantos irmãos e irmãs que têm menos do que nós, levando-nos a admiração destes gestos, como Jesus se admirou quando viu entrar no Templo uma viúva que ofereceu tudo o que tinha, as suas duas moedinhas (Lc 21,2). 

Pe. Ricardo Nunes
(Artigo publicado na Revista Caminhando - Maio/2020 - Diocese de Nova Iguaçu)

quarta-feira, 29 de abril de 2020


OUTONO ESPIRITUAL


          Era uma tarde de domingo, Festa da Divina Misericórdia, diante de Jesus Sacramentado, eis que no meu coração uma voz sussurrava: “Meu filho, eis que estou dando ao mundo inteiro, a graça de experimentar um outono espiritual, onde parece que tudo está perdido e não existe vida, porém, misteriosamente estou agindo na humanidade inteira; não tenhais medo, pois estou preparando uma grande primavera, para renovar todas as coisas”.

Naquele momento compreendi que este tempo de pandemia, embora seja de muitas provações, tem sido também a experiência do kairós (o tempo de Deus) na nossa vida. Àquele tempo que nós muitas vezes não conseguimos experimentar, pois no corre-corre diário, pensamos no nosso tempo (krónos), sobretudo das inúmeras maneiras de não o perder, pois como dizem alguns: “tempo é dinheiro”.

O que acontece no outono? Os dias são mais curtos, a temperatura é amena, os frutos e folhas começam a cair; tempo que começamos a relaxar um pouco, curtir as tardes mais frescas, com uma brisa leve que nos traz um certo grau de nostalgia, até mesmo levando a sentir saudade de coisas velhas, que há tanto tempo deixamos para trás, correndo o risco de levar a vida em “banho-maria”, caindo na mornidão – porém, o Senhor nos adverte: não seja morno (cf. Ap 3,16) – o que pode levar à indiferença da fé, duvidando, até mesmo, do cuidado de Deus.

Temos nos encontrado menos, reunindo pequenas assembleias (reais) ao lado de uma grande assembleia (virtual), sem deixar de ser uma Igreja viva e atuante, contudo, temos sentido, ao mesmo tempo, um entusiasmo da parte de alguns e o desânimo por parte de outros. Vidas estão sendo ceifadas por um vírus, sonhos estão deixando de existir, interrupções rápidas nas páginas da história, e o que isso tem nos ensinado? Não é tempo de desanimar, haverá um recomeço e nós veremos como Deus foi generoso quando as belas folhas começarem a aparecer, os frutos mais saborosos forem colhidos e juntos cantarmos as maravilhas do Senhor, que não se esqueceu do seu povo amado.

Outono é tempo de podar, de limpar, de tirar o que atrapalha, porém, a melhor poda é aquela que não se faz; que não se faz por nossas mãos, mas pelas mãos de Deus que tudo criou e tudo fará novo de novo. Na natureza não há poda, as plantas, pequenas ou grandes, crescem e se renovam no passar do tempo, assim temos visto, se acompanhamos todas as notícias (não somente as ruins) que os mares estão mais limpos, os animais andam com mais liberdade em espaços urbanizados, o índice de poluição diminuiu e, até mesmo, um buraco na camada de ozônio está se fechando.

Qual foi nossa colaboração diante de tudo isso? Não ter feito nada, deixando Deus – o grande artesão – fazer a parte dele. Quando foi que imaginamos que poderíamos ajudar a salvar a humanidade não fazendo nada, apenas cumprindo um isolamento social, deixando Deus ser Deus e nada mais? Pois é, assim estão sendo escritas as novas páginas da história da humanidade, fazendo-nos ver que, por mais importante que seja aquilo que fazemos, nós nunca teremos em nossas mãos o poder de Deus, pois só ele faz cumprir o que diz a Escritura: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu...” (Ecl 3,1).

Contudo, “lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os maus dias...” (Ecl 12,1) – parafraseando, lembra-te de Deus no outono, antes que chegue os dias de inverno – pois o Senhor quer te refazer, por inteiro, sem deixar nada, absolutamente nada, sem ser tocado pela sua graça.

Pe. Ricardo Nunes

terça-feira, 21 de abril de 2020


DOM DAS LÁGRIMAS





Em meio ao caos duma pandemia, privados de tantas coisas, como encontros familiares e religiosos (missas e demais propostas oracionais), vemos pessoas profundamente abaladas, sofrendo imensamente por estarem “obrigadas” – por um vírus – a viverem o distanciamento social, acarretando (ou aumentando) doenças emocionais como ansiedade e depressão, vemos surgir “dentro” da própria Igreja, falas condenatórias, julgando pessoas que se tornam capazes de chorar na presença de Deus, estando elas nos “eventos da igreja”, como cita um artigo que está ganhando popularidade nas redes sociais, sobretudo entre os padres e religiosos.

No artigo se apresenta, primeiramente, o choro como “sinal de que uma pessoa foi intimamente tocada por Deus”, porém, logo abaixo cita o mesmo artigo: “como o diabo tem a capacidade de perverter e macaquear todas as coisas, ele tem usado e abusado do chororô para enganar muitos católicos”.

A CNBB lançou, para este momento que estamos vivendo, um projeto que tem como tema: “É tempo de cuidar!”, sim, precisamos cuidar, fazendo um profundo discernimento caso por caso, percebendo que isso pode levar sim a uma histeria coletiva, mas sem generalizar. Se isso acontece nas nossas comunidades eclesiais, ao invés de julgar como uma possível “ação do diabo”, o remédio indicado é estender as mãos e ajudar aquela pessoa a encontrar, dentro de si, quais são as motivações que a levaram a derramar suas lágrimas naquele “evento” da Igreja (seja uma Missa, uma Adoração Eucarística, um retiro, etc.). Talvez, aquele lugar fosse o mais seguro, longe de conhecidos, que ela encontrou para poder chorar suas dores, suas mazelas, seus pecados. Será que depois dessa pandemia não teremos muitos cristãos chorando em nossas celebrações, sendo momento de reencontro com Cristo na Eucaristia e nos irmãos? Será que estarão macaqueando, movidos pelo diabo?

Para alguns que desconhecem essa informação, o dom das lágrimas é um dos mais antigos da Igreja Primitiva e se olharmos calmamente a Sagrada Escritura veremos inúmeros exemplos, sendo este dom um caminho que leva o pecador a ser lavado de seus pecados, impulsionando a uma verdadeira e sincera conversão, alcançando consolação.

Vejamos, portanto, algumas citações:

·       “Bem aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4);

·       “Ele enxugará toda lágrima de seus olhos...” (Ap 21,4);

·       “Tempo de chorar e tempo de rir” (Ecl 3,4);

·       “Digo que certamente vocês chorarão e se lamentarão, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,9);

·       “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram” (Rm 12,15);

Esses são alguns, como disse acima, de inúmeros outros exemplos, como temos, ainda, a cura de Ezequiel que, ao se colocar em oração na presença de Deus “chorava abundantemente” (Is 38,3).

O dom das lágrimas, se não o temos, podemos e devemos pedir a Deus, como ensina São Simeão: “Devemos começar nossa oração implorando de Deus o dom das lágrimas”, e ao receber esse dom, não apenas os olhos choram, mas também o coração, que tantas vezes machucado, encontra numa celebração ou outros encontros de oração, ajudados pela Palavra de Deus a oportunidade de colocar para fora suas dores e ressentimentos. Por mais envolventes que sejas as palavras do pregador, é a Palavra de Deus que penetra o coração das pessoas.

Numa homilia na casa Santa Marta no dia 25 de maio de 2018, o Papa Francisco diz: “Trouxeram de Siracusa a relíquia das lágrimas de Nossa Senhora. Hoje estão aqui, e rezemos a Nossa Senhora para que nos conceda a nós e também à humanidade, que dele precisa, o dom das lágrimas para que possamos chorar: pelos nossos pecados e pelas tantas calamidades que fazem sofrer o povo de Deus e os filhos de Deus”. O Santo Padre reconhece que as chorar é dom de Deus, o dom das lagrimas é um presente de Deus.

Como pastores zelosos do Povo de Deus, precisamos ir ao encontro e tocar a vida das pessoas “que choram nos eventos da Igreja”, talvez nem seja fruto da intimidade com Deus, da escuta da Palavra e nem mesmo ação do diabo, mas simplesmente por desgosto de estar ali num ambiente frio, dividido, sem ação do Espírito, ali onde deveria ser lugar de encontro com Deus, anunciado pela Palavra e mostrado vivo e real na Eucaristia, levando as pessoas a reconhecerem – como os discípulos de Emaús – “não ardia o nosso coração...?”

Bem-aventurados (felizes) os que choram! “Penso em muitas pessoas que choram: pessoas isoladas, pessoas em quarentena, os anciãos sós, pessoas internadas e as pessoas em terapia, os pais que veem que, como falta o salário, não conseguirão dar de comer aos filhos. Muitas pessoas choram. Também nós, em nosso coração, as acompanhamos. E não nos fará mal chorar um pouco com o pranto do Senhor por todo o seu povo” (Papa Francisco, 29 de março de 2020). Se você estiver sozinho em casa, chore; se estiver no transporte público, chore; se estiver num “evento da igreja”, chore; a ninguém pode se privar desse direito, pois é dom de Deus.


Peçamos a graça de chorar!



Pe. Ricardo Nunes

sábado, 4 de abril de 2020


O que realmente tem valor!






Estamos vivendo uma pandemia mundial e agora “demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados” (Papa Francisco, 27.03.2020), porém, esse tempo tem sido importantíssimo para todos nós, pois estamos redescobrindo o valor de muitas coisas. Vivemos num mundo que gira cada vez mais rápido, estamos todos correndo contra o tempo, multiplicando nossos afazeres, chegando ao ponto de reconhecer que fazemos parte do grande número que forma hoje a “sociedade do cansaço”, deixando-nos mover pela rotina que criamos, mantendo-nos totalmente ocupados, como nos diz Dom José Tolentino: “De repente, a rotina substitui-se à própria vida. Quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Cada dia é simplesmente igual ao anterior” (A mística do instante, p. 17).

              Tudo que antes parecia normal, depois de havermos criado nossa rotina, sabendo muito bem, nos mínimos detalhes, o que devemos fazer cada dia, fomos tomados por uma surpreendente notícia, que havia um “inimigo invisível” nos fazendo prisioneiros dentro de nossas próprias casas, fechados naquele espaço físico que se tornou, simplesmente, para muitos, um lugar de passagem, onde apenas comiam, dormiam, se trocavam, mas não viviam. Os nossos lares foram se tornando lugares pouco frequentados, pois vivendo no corre-corre, quase não encontramos tempo para usufruir do que construímos.

              Num instante aprendemos a dar mais valor para a família, criaram-se espaços de convivência, construíram altares para orações, fazendo-se multiplicar o número de comunidades, as quais chamamos Igreja Doméstica. “O tempo da família, sabemos bem disso, é um tempo complicado e cheio, ocupado e preocupado. É sempre pouco, não basta nunca, há tantas coisas a fazer. Quem tem uma família aprende a resolver uma equação que nem mesmo os grandes matemáticos sabem resolver: dentro das vinte e quatro horas se faz o dobro! Há mães e pais que poderiam vencer o Nobel, por isso. De 24 horas fazem 48: não sei como fazem, mas se movem e o fazem! Há tanto trabalho em família!” (Papa Francisco, Catequese sobre a oração em família, 26.08.2015).

              Aprendemos a dar mais valor à Igreja, à Eucaristia e aos demais sacramentos. Quanta falta sentimos de participar de uma celebração eucarística, de ir à igreja para uma oração comunitária ou mesmo pessoal. Mas quantas vezes passamos em frente à igreja, vemos suas portas abertas como os braços de Deus querendo nos abraçar e não corremos ao seu encontro para ali receber o alento para nossas dores, o perdão para nossos pecados, o sustento que nos faz voltar à vida com mais confiança, pois sabemos que temos um Deus que não se esquece de nenhum de nós. De acordo com o documento 43 da CNBB, cerca de – 70% das comunidades no Brasil não têm acesso à Celebração Eucarística – presidida por um ministro ordenado. Muitas delas se encontram em regiões distantes que não permitem aos fiéis irem a uma igreja. E nós, inúmeras vezes deixamos de ir à missa, seja por relaxamento ou por trabalho, sem nos darmos conta de quanto nos faz falta deixar de comungar, hoje sabemos, infelizmente estamos privados das celebrações públicas, onde os fiéis são orientados a “participarem” ativamente das Missas transmitidas pela TV ou outros meios de comunicação, fazendo naquele momento a sua comunhão espiritual, experiência presente na Igreja, mas pouco compreendida. “Não poder receber a Eucaristia não significa não poder predispor a acolher Jesus com o coração” (Artigo publicado no site vaticannews.va – 02.04.2020). Rezamos, com desejo ardente, que passe logo essa pandemia e nos encontremos para uma grande celebração de ação de graças.

               Vivemos também nesse tempo um olhar mais atento aos profissionais da saúde, tantas vezes incompreendidos e desvalorizados, que não estão medindo esforços para socorrer as vítimas do coronavírus. No Juramento de Hipócrates feito pelos médicos, vemos com quanta grandeza querem viver sua vocação: “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade. Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos. Exercerei a minha arte com consciência e dignidade. A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação” (Versão de 1983). A estes profissionais a nossa eterna gratidão, mas devemos também nos perguntar: quem valor eles têm para a minha vida?

              Se grande é o número daqueles que se dedicam a cuidar das doenças físicas, grande também é o número dos que foram chamados ao cuidado das almas,  trazendo presente os sacerdotes (padres e bispos), religiosos e religiosas que foram vítimas do coronavírus, pois estiveram na linha de frente dessa “guerra” cuidando de seus fiéis. Já é incontável o número de padres e consagrados que fizeram a oferta de suas vidas nestes meses de pandemia, trazendo gravadas no coração as palavras do Apóstolo: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Aprendamos, com isso, a dar mais valor aos sacerdotes, que não são super-homens, mas se desdobram para não deixar faltar o necessário para o seu povo. Valorizemos ainda mais os consagrados, pois não são “funcionários qualificados” para a Igreja, mas pedras vivas nessa construção do Corpo de Cristo.

              Por fim, estamos aprendendo a dar mais valor à vida, vida que não nos pertence, mas é Dom de Deus, “pois antes que no seio materno fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado...” (Jr 1,5). Essas são palavras de amor de um Deus que nos pede a ter mais atenção por si e pelos outros, pois somos Seus, obras nascidas das mãos e do coração de um Deus eternamente apaixonado pela humanidade.

Estamos todos no meio de uma grande tempestade, como nos recordou o Papa Francisco, diante de uma Praça vazia e ao mesmo tempo tão cheia, naquele evento histórico, concedendo-nos a sua Bênção Apostólica – Urbi et Orbi (à Cidade de Roma e ao Mundo): “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente ‘salvadores’, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades [...] Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’”.



 Pe. Ricardo Nunes

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020


ONDE ESTÁ O TEU IRMÃO?

 

Estamos no tempo quaresmal, convidados a um exame mais aprofundado da nossa consciência e, assim, chamados a uma experiência ainda maior da misericórdia de Deus, escolhendo como tema para este artigo o questionamento de Deus a Caim, logo após ter assassinado o seu irmão. A causa do assassinato? Inveja. 

Deus olhou para Abel e sua oferta, que era feita de coração e com atitude de gratidão e não, não simplesmente para mostrar que poderia oferecer o melhor e se vangloriar disso, como diz Santo Tomás de Aquino: “(Deus) olhou mais para o oferente que para a sua oferenda, porque a oblação é aceita em virtude da bondade do oferente...” O invejoso se irrita e se abate diante do sucesso do outro, mesmo que seja seu irmão. Excita sentimentos de ódio: corre-se risco de odiar aqueles de que se tem inveja ou ciúme, e, por consequência, de falar mal deles, de desacreditá-los, caluniar ou de lhes desejar mal. “A inveja assemelha o homem a Satanás” (Frei Pedro Sinzig).

Quantas vezes nós também somos alvos de inveja, pois nos colocamos diante de Deus de coração puro e realizamos nosso ministério, não se apoiando em méritos pessoais, mas com o coração cheio de ação de graças, pois reconhecemos a cada dia como São Paulo: “Sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Tantas vezes vemos gerar disputas dentro do âmbito comunitário, numa luta desenfreada do “quem faz melhor”, só para serem vistos, porém, devemos nos alertar com o que Jesus nos diz no Evangelho da Quarta-feira de Cinzas: “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mt 6,3). Somos muitas vezes influenciados pelo espírito de competição que toma conta da sociedade e que reflete dentro da Igreja, criando estruturas apodrecidas por causa desses males que se infiltram e destroem a essência da vida eclesial.

Será que existe esta consciência, de que formamos, pelo batismo, uma só família e somos todos irmãos? Somos todos irmãos, pois um só é o nosso Pai. Aquele com quem Jesus manteve uma profunda intimidade ao longo de toda a sua vida e que carinhosamente chamava de ‘Abá’ (paizinho). Era encantador o modo como Jesus se dirigia ao Pai, tanto que despertou no coração de seus discípulos o desejo de rezar como ele rezava e ensina o ‘Pai-nosso’, que era, simplesmente, a oração do coração de Jesus. Uma oração que nos faria muito bem meditar ao longo da Quaresma, pois nos faz experimentar sempre mais o amor de Deus e se abrir para amar mais os irmãos, com um olhar de compaixão e misericórdia, como nos propõe a Campanha da Fraternidade – 2020: “Para uma verdadeira mudança de vida, precisamos aprender a configurar nosso olhar o de Jesus, com o olhar do Bom Samaritano” (Texto Base, n. 26).

A resposta de Caim a Deus é bem dura e insensível: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?” a inveja, o ciúme e o ódio, corroeram o coração de Caim, tornando-o insensível a dor e a morte de seu irmão, levando-o a indiferença em relação com alguém que era sangue do seu sangue. Tudo isso sufocou o amor, que é o elo que une afetiva e efetivamente as pessoas. Amar significa saber onde estão aqueles que precisam de cuidado e proteção, aqueles que estão nas vias marginais da sociedade, mas também do nosso coração. “Pergunte a si mesmo se o seu coração não endureceu, se não se tornou gelo. (...) A misericórdia, diante de uma vida humana em situação de necessidade, é a verdadeira face do amor” (Papa Francisco).

Somos todos irmãos, mas não somos todos iguais, e, o caminho para a fraternidade passa pelo reconhecimento da diversidade. Caim não aceitou ser diferente do irmão e Abel não se livrou da ira de Caim, mas que Deus nos livre dos “Cains” de hoje, que tantas vezes querem, com sua ira, nos devorar.

Por fim, caro leitor, medite sobre suas relações, primeiro com Deus, sendo ela base para o seu relacionamento com todos e abra seus ouvidos e coração, pois o Senhor também quer lhe perguntar: “Onde está o teu irmão?”



Pe. Ricardo Nunes


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020




O DILEMA DAS TRANSFERÊNCIAS



Sempre que se propõe transferências de padres e diáconos, começam os questionamentos acerca da necessidade dessa ação, sobretudo apresentando os resultados do bom trabalho que está sendo realizado e, por isso, mereciam ficar um pouco mais naquela paróquia, onde todos já estão “acostumados” com seu trabalho. Aqui apresento um primeiro e grande problema, ou seja, o acostumar. Corremos o risco de cair no comodismo e as ações pastorais não evoluírem como deveriam, pois criamos um ritmo de trabalho que nos faz pensar que não precisa mudar mais nada, apenas manter o que já está planejado ou repetir ações anteriores que deram certo. Mas se vivemos em constante mudança, se a humanidade evolui, vendo que o que somos hoje não é o que éramos ontem, qual a razão de querer na vida pastoral sustentar a bandeira do “vamos deixar como está” ou “time que está ganhando não se mexe”?


Outro ponto importante a se refletir é o afeto, a proximidade que se cria entre o povo e o padre ou diácono, porém, devemos fugir do perigo dos relacionamentos possessivos, como nos diz Dom José Carlos (Bispo de Divinópolis): “Normalmente, e isso é humano e bom, criam-se amizades fortes e importantes com o padre durante o tempo, curto ou longo, de permanência, mas não se pode esquecer que o padre não é “seu” ou “nosso”, mas é da Igreja, da Diocese e colaborador do bispo. Isso não é arbitrário, é da natureza da nossa vocação sacerdotal e episcopal”.


A Igreja tem suas leis e estas devem ser aplicadas, assim, vemos que o Código de Direito Canônico apresenta sobre o exercício ministerial: “É necessário que o pároco tenha estabilidade e, portanto, deve ser nomeado por tempo indeterminado; só pode ser nomeado pelo Bispo diocesano, por tempo determinado, se isto for admitido por decreto pela Conferência dos Bispos” (cân. 522). Embora goze de estabilidade, isso não significa que, numa necessidade, seja pedido que o padre assuma o ofício de pároco ou outro ofício numa nova paróquia.


Recordo, ainda, que as transferências estão no centro da missionariedade da Igreja, que nos convida a viver o cuidado do seu todo, não apenas com uma parcela especifica do Povo de Deus, embora sejamos destinados por ofício a cuidar de uma paróquia, temos quer ter a consciência de Jesus que disse: “Também é necessário que eu anuncie a outras cidades o evangelho do reino de Deus; porque para isso fui enviado” (Lc 4,43). A messe continua sendo grande e necessitada de muitos e bons trabalhadores, onde cada um que acolhe o convite de Jesus para o ministério ordenado deve-se reconhecer como trabalhador dessa messe que não está num endereço específico, mas que chega aos confins do mundo.


Por fim, precisamos entender que ninguém é insubstituível, embora seja muito bom o trabalho que estejamos realizando, outros farão outras coisas ou até as mesmas, mas de outro jeito. Porém, precisamos entender que tudo passa. Passam até mesmo afetos que achávamos que seriam eternos, ficando para trás cargos e títulos, permanecendo apenas os bons exemplos e o testemunho de amor a Deus e à Igreja. Termino com uma frase do Papa Francisco que deve nos ajudar, sobretudo, numa reflexão pessoal: “É preciso visitar os cemitérios para ver os nomes de tantas pessoas que se consideravam imunes e indispensáveis” (Discurso aos prelados da Cúria, dezembro de 2014). 

Pe. Ricardo Nunes
(Artigo publicado na Revista Caminhando - Diocese de Nova Iguaçu, fev.2020)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020


Leis para quem?




Há na Igreja um grande número de fiéis que questionam sobre a aplicação das leis, sobretudo, em algumas questões que não pretendem resolvê-las e, portanto, querem que a Igreja se adeque ao seu estado de vida.

Pelo batismo somos incorporados a Cristo, constituindo, assim, o Povo de Deus, onde todos devem se empenhar para cumprir a missão própria que o Senhor nos confiou (cf. Cân 204). Vemos, com isso, que fazemos parte de um único corpo, onde Cristo é a cabeça, portanto, devemos nos deixar conduzir por Ele, uma vez que decidimos livremente permanecer unidos a ele.

Uma vez batizados na Igreja Católica, estamos sujeitos à lei que nela vigora, para que sejam setas a nos apontar o caminho da salvação, como expressa o último cânon do Código de Direito Canônico: “a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema” (Cân. 1752). Aqui sempre se apresenta um ponto de contestação quando não há aprofundamento na doutrina da Igreja a que pertence. Muitos cristãos católicos desconhecem os pilares que sustentam a vida e missão da Igreja Católica e ignoram sua história em vista de soluções imediatas para seus problemas. Três pilares nos sustentam, que são: Sagrada Escritura: as escrituras sagradas ou Bíblia como conhecemos constituem o pilar da revelação direta e histórica da vida de Cristo; a Tradição onde temos um dos pilares mais fortes e inesgotáveis, ela nos trouxe verdades de fé a complementar a bíblia, através dos costumes e escritos dos primeiros cristãos; no Magistério temos a autoridade transferida aos apóstolos e ao Primado petrino, o Papa.

Se lemos atentamente a Palavra de Deus, veremos que até mesmo Jesus esteve sujeito a Lei, embora alguns o acusassem dizendo que ele veio para aboli-la, ao que ele responde que veio para lhe dar pleno cumprimento.

A liturgia da Festa da Apresentação do Senhor nos mostrou que também os pais de Jesus são cumpridores da Lei. Nem Maria nem Jesus tinham necessidade de cumprir os ritos se olhamos pela ótica da graça que agia na vida deles: Maria concebida sem pecado e Jesus o Ungido do Pai. O rito prescrito era que a mãe, após o parto, precisava passar por um rito de purificação e Maria foi como todas as outras mulheres judias, pois, embora fosse ela “bendita entre todas as mulheres”, nunca lhe atribuiu regalias por ser a mãe do Filho de Deus. Cumpria fielmente suas obrigações, com piedade e devoção, obedecendo a Deus e cumprindo a lei.

Jesus, o consagrado-ungido do Pai, não tinha “necessidade” de ser apresentado no Templo, pois estava prescrito “que todo primogênito deveria ser consagrado a Deus”, porém, foi levado para se escrituras como disse o profeta Malaquias: “logo chegará ao seu templo o Dominador” (Mal 3,1) e também mostrar que ele, mesmo sendo Filho de Deus, nascendo segundo a carne estava sujeito a lei.

Portanto, devemos, por estes exemplos, refletir sobre a razão do nosso “estar na Igreja”, de ter recebido os sacramentos, de me “tornar” membro de uma comunidade cristã e, mesmo assim, não me sentir Igreja, querendo da Igreja apenas os direitos, mas sem cumprir suas obrigações. Se todos que reclamam direitos estivessem comprometidos com a construção do Reino, o anúncio do Evangelho já tinha chegado a muitas outras pessoas que ainda não ouviram falar de Jesus. Quantas pessoas buscam privilégios na Igreja, relaxamento das leis ou o famoso “jeitinho”? Ninguém é obrigado a estar na Igreja, mas uma vez que nela entramos pela porta da frente que é o batismo, devemos buscar conhecer suas estruturas, suas normas e preceitos, fazendo-se assim, um membro vivo de corpo de Cristo, aplicando as leis não só aos outros, mas a nós mesmos.



Pe. Ricardo Nunes


sábado, 1 de fevereiro de 2020


Deus nos conduz pelos caminhos mais longos!





Toda história da salvação está repleta de exemplos que nos falam de um Deus próximo, que cuida, conduz e orienta seu povo, apesar de seus erros e dureza de coração, como nos diz o profeta: "Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor" (Jr 31,3). A partir dessa proximidade amorosa de Deus, somos chamados a viver essa mesma dinâmica em nossa vida, pois, criados a sua imagem e semelhança, devemos deixar refletir por nossa vida este amor que nos penetra e nos preenche. 

Para que isto aconteça, precisamos aceitar sua condução, mesmo que seja por caminhos longos. Deus não gosta de encurtar caminhos e usa de algumas ocasiões da vida para mostrar isso, como lemos nas páginas sagradas sobre a libertação do povo que vivia há muitos séculos escravo no Egito.

Quando o povo, conduzido por Deus através de Moisés, saiu do Egito precisava deixar para trás muitas coisas, sobretudo a saudade dos tempos que viveram escravos e oprimidos. Saíram e poderiam percorrer um caminho bem curto até a terra prometida, mas Deus fez que percorressem um caminho longo, que durou 40 anos, para que se libertassem verdadeiramente de tudo o que os escravizavam. 
No início daquela caminhada todos tinham uma certeza: haviam saído do Egito, porém, o Egito ainda precisa sair de dentro deles. Quantas vezes deixamos para trás os nossos “egitos”, tentamos demonstrar isso às pessoas e convencê-las de quem vivemos uma nova etapa da vida, mas sabemos que muitas coisas do passado ainda fazem parte de nossa história, vivendo de aparências e, por vezes, bastante incoerentes com o que Deus espera de nós. É difícil se desfazer de uma história, apagar marcas do passado e dar um impulso novo, pois estamos machucados, fragilizados, carregando muitos traumas, que somente Deus pode curar e, verdadeiramente, nos libertar.

Somos chamados a uma sincera conversão de vida, mudar nossos pensamentos e atitudes, viver a coerência cristã, mas sem pressa, pois Deus tem o seu jeito de nos ajudar e usa de caminhos alongados, até mesmo nos fazendo visitar nosso passado para que, pouco a pouco, cure nossas feridas. Compreendemos que Deus tem um tempo para cada coisa, sem pressa, sem atropelos, sustentados por suas mãos, mãos de um pai que nos apoia e conduz, mãos de mãe que nos acaricia e enxuga nossas lágrimas.

De onde Deus te tirou? Onde era seu Egito e qual foi a razão que te levou até lá? Quanto tempo Deus te tem feito caminhar com Ele para que aconteça sua libertação? Essas perguntas são fundamentais para dar um sentido novo para a vida. Quantos testemunhos bonitos temos na Igreja, de pessoas que se permitiram dar o primeiro passo que é o SAIR, vindo depois o deixar-se CONDUZIR pelo caminho que trilhado para nós, deixando para trás o que antes nos prendia para se LIBERTAR de toda forma de escravidão.

Caro leitor, como alguém já disse: desertos não duram para sempre. São apenas lugares de passagem para se chegar ao que foi reservado e prometido por Deus, não é no deserto que Ele nos quer. Levante a cabeça e olhe para frente, o que Deus tem para ti está muito próximo, não desanime e não desista de caminhar, por mais longo que seja o caminho.

Pe. Ricardo Nunes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Algo grande e que seja amor: dar a vida pelos amigos!

A história da Igreja está repleta de histórias de pessoas que aceitaram o chamado de Jesus a identificar-se com Ele também através do celibato. E qual é o segredo do celibato?


“Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gen 1,27). É assim que o primeiro relato do Gênesis conta a origem do homem e da mulher: Deus cria os dois ao mesmo tempo. Ambos têm a mesma dignidade, porque são a Sua imagem viva. O segundo relato se detém novamente neste evento (Gen 2,7-25), mas o faz em câmera lenta: Deus primeiro cria o homem e o coloca no jardim do Éden. A beleza do mundo criado brilha em todos os seus detalhes: o céu, as águas do mar, os rios que cruzam as montanhas e as árvores de todos os tipos de espécies. Um cenário extraordinário no qual, no entanto, Adão se sente sozinho.
Para tirá-lo dessa solidão, o Senhor cria toda a variedade de criaturas vivas que povoam o Paraíso: os pássaros do céu, os peixes que cruzam os mares, os animais terrestres. Mas nada disso parece ser suficiente para o homem. É então que Deus decide conceder-lhe uma “ajuda adequada” (Gen 2,18) e, da própria costela do homem, cria a mulher. Por fim, Adão descobre olhos que podem retribuir um olhar como o seu: “Eis agora aqui, o osso de meus ossos e a carne de minha carne” (Gen 2,23). Este encontro enche-o de alegria, mas acima de tudo ilumina a sua identidade: diz-lhe de uma forma nova quem ele é. Algo estava faltando no homem, que apenas alguém como ele poderia lhe dar.
“Não é bom que o homem esteja só”
Essas páginas do Gênesis recolhem verdades fundamentais sobre o ser humano que são expressas – mais do que com uma reflexão teórica, de um modo narrativo – com uma linguagem simbólica. A solidão de Adão tem, portanto, um profundo significado antropológico. São João Paulo II disse que todo homem e mulher participam dessa solidão original. Em algum momento de sua vida eles têm que enfrentá-la[1]. Quando Deus diz “não é bom que o homem esteja só” (Gen 2,18), ele realmente se refere a ambos[2]: tanto o homem quanto a mulher precisam de ajuda para sair dessa solidão, um canal para caminhar juntos para a plenitude que lhes falta. E isso é o casamento.
Quando, séculos depois, Jesus lembrar aos fariseus como as coisas eram “no princípio”, fará referência precisamente a essa passagem da Bíblia (cfr. Mt 19,1-12). O casamento cristão é um chamado de Deus que convida um homem e uma mulher a caminhar juntos para Ele. E não apenas juntos, mas também um por meio do outro. O cônjuge é, para uma pessoa casada, um caminho essencial para Deus. Um caminho em que a carne se converte em cenário da comunhão e da entrega amorosa, matéria e espaço de santificação. O amor conjugal é, assim, um encontro de corpos e almas que embeleza e transfigura o carinho humano: faz possível, com a graça do sacramento, um valor sobrenatural.
Quem vive o celibato é pai – ou mãe – de muitos filhos, porque “a paternidade é dar vida a outros” (Papa Francisco)
Ao mesmo tempo, o amor entre um homem e uma mulher aponta para fora de si mesmo. Quando é verdadeiro, é sempre um caminho para Deus, não uma meta. A meta continua sendo a plenitude que só pode ser encontrada n’Ele. Por isso, não é estranho o fato de que alguém casado possa sentir as vezes aquela "solidão original". No entanto, esse sentimento não significa, como às vezes se interpreta, que o amor acabou e que outra história deva começar, porque essa nova história também não seria suficiente. Pelo contrário, é sinal de que o coração humano tem uma sede que só pode ser saciada completamente no infinito amor de Deus.
A psicologia de quem sabe que não está sozinho
Nesse mesmo diálogo sobre o casamento, depois de lembrar o ensinamento do Gênesis, Jesus dá um passo adiante. A entrega mútua do homem e da mulher é um caminho maravilhoso que leva a Deus. No entanto, não é o único caminho possível. Jesus fala daqueles que, por um dom especial, renunciam ao matrimônio “pelo Reino dos Céus” (Mt 19,12). Ele mesmo percorreu esse caminho: permaneceu celibatário. Na sua vida Ele não precisava de uma mediação entre Deus e Ele: “o Pai e eu somos um” (Jo 10:30), “eu estou no Pai e o Pai em mim” (Jo 14,11). E Jesus não apenas percorreu esta via, mas Ele mesmo quis tornar-se o Caminho para que muitas outras pessoas pudessem amar dessa maneira, que “só tem sentido a partir de Deus”[3].
A história da Igreja está repleta de histórias de pessoas que aceitaram o chamado de Jesus a identificar-se com Ele também neste aspecto: algo central em Jesus, que pertence ao mais íntimo da sua vida, embora não seja para todos os cristãos. Aqueles que, desde os primeiros séculos, responderam ao chamado ao celibato, não desprezavam o matrimônio. Inclusive, talvez até chegaram a se entusiasmar por esse caminho. Mas, precisamente por causa disso, porque perceberam a vida conjugal como algo sublime, puderam entregar esse projeto a Deus com uma alegria radiante. “Só entre os que compreendem e avaliam em toda a sua profundidade o que acabamos de considerar acerca do amor humano”, escreve São Josemaria, “pode surgir essa outra compreensão inefável de que falou Jesus (cfr. Mt 19,11), que é puro dom de Deus e que impele a entregar o corpo e a alma ao Senhor, a oferecer-Lhe o coração indiviso, sem a mediação do amor terreno”[4]. De algum modo, quem é chamado por Deus ao celibato, é levado a descobrir a fonte e o objetivo de todo amor autêntico. São alcançados de modo especial pelo Amor que encheu o coração de Jesus e que se derramou sobre sua Igreja.
O celibato, portanto, é um caminho que reflete a gratuidade do amor d'Aquele que sempre dá o primeiro passo (cfr. 1 Jo 4,19). Embora as pessoas que vivem o celibato pareçam renunciar à sua liberdade, ao oferecer a Deus a possibilidade de formar uma família, na verdade eles a ampliam: o seu abandono nas mãos de Deus, a sua disposição de deixar por Ele “casa, irmãos ou irmãs, pai ou mãe, filhos ou terras” (Mt 19,29), torna-os, de um modo particular, “livres para amar”[5]. Como uma pessoa casada, devem guardar o seu coração, para que o amor que têm dentro de si não se afaste de Deus, e para que possam dá-lo aos outros. No entanto, a sua entrega não se concentra na pessoa do cônjuge, mas em Cristo que os envia ao mundo inteiro, para transmitir “os latejos do seu coração amorosíssimo”[6] às pessoas que estão ao seu redor.
Assim foi a vida de Jesus. Ele não se sentia só, porque sabia que estava sempre em companhia do seu Pai: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11,41-42). Para nós, por outro lado, o risco da solidão permanece. Mas quando Cristo realmente preenche o coração de uma pessoa, ela não está mais sozinha. Por isso, São Josemaria dizia que Deus lhe tinha dado “a psicologia de quem não se encontra nunca só, nem humana nem sobrenaturalmente só”[7]. Com palavras que refletem a sua própria experiência, escrevia: “O coração humano tem um coeficiente de dilatação enorme. Quando ama, alarga-se num crescendo de carinho que ultrapassa todas as barreiras. Se amas o Senhor, não haverá criatura que não encontre lugar em teu coração”[8].
João, um coração celibatário
Na última ceia, poucas horas antes de entregar a sua vida, Jesus abre o seu coração aos apóstolos: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Estas palavras, que concentram todo o seu amor pelos homens, são ao mesmo tempo um chamado. O Senhor diz aos apóstolos: “Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15). Eles são, como todos os homens, destinatários do seu amor “até o fim” (Jo 13,1), mas eles são também amigos de uma forma especial. “O Amigo” convida-os a fazer como Ele[9]: dar também a vida pelos seus amigos. Estas palavras são indubitavelmente a origem de toda vocação cristã, mas sempre ressoaram de maneira especial nos corações daqueles que O seguiram deixando tudo.
A Cruz será o lugar da maior manifestação do amor. Nesta cena sublime emerge fortemente, com Maria e as santas mulheres, a figura do apóstolo João. “Na hora da verdade, todos fogem, exceto João, que verdadeiramente amava com obras. Só este adolescente, o mais jovem dos Apóstolos, permanece junto da Cruz. Os outros não sentiam esse amor tão forte quanto a morte”[10]. Desde o alvorecer da adolescência, o amor de Jesus tinha vibrado em seu coração. Nós sabemos como ele guardava em sua memória a lembrança do dia em que encontraram o Senhor, “João cruzou seu olhar com o de Cristo, seguiu-O e lhe perguntou: Mestre, onde moras? Foi com Ele e esteve com o Mestre o dia todo. Depois, com o passar dos anos, irá fazer um relato com uma candura encantadora, como um adolescente que faz um diário em que abre seu coração e indica até a hora: hora autem erat quasi decima... Recorda até o momento exato em que Cristo olhou para ele, de quanto Cristo o atraiu, como não resistiu a Cristo, de quando se apaixonou por Cristo”[11].
Podemos imaginar como Jesus, na Cruz, se emocionaria ao ver o jovem discípulo que “na ceia debruçou-se sobre o peito” (Jo 21,20). Talvez não tenha sido uma surpresa para Ele encontrar a sua Mãe. De uma forma ou de outra, ela sempre esteve a seu lado. Uma mãe sempre apoia o filho. No entanto, ao lado dela, o olhar do Senhor descobre um amigo: João. No meio da angústia daquela hora, seus olhos se encontram. Que enorme alegria deve ter se produzido no coração do Senhor! E é precisamente nessa hora, diz-nos o Evangelho, quando o vê junto à sua Mãe, que o Senhor introduz João na relação única que existia entre Maria e Ele. “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’” (Jo 19, 26-27).
“O Amigo” convida-os a fazer como Ele: dar também a vida pelos seus amigos
Anos depois, João escreveria: “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). Esta declaração surpreendente vem da sua experiência pessoal. João sabia-se profundamente amado por Jesus. Foi algo que o preencheu e deu um novo significado à sua existência: levar esse amor ao mundo inteiro. “João”, disse o cardeal John Henry Newman, “teve o indescritível privilégio de ser amigo de Cristo. E assim aprendeu a amar os outros. Primeiro, o seu afeto esteve concentrado e depois pôde expandi-lo. Além disso, recebeu o encargo solene e reconfortante de cuidar da Mãe de nosso Senhor, a Santíssima Virgem, depois da Sua partida. Não temos aqui as fontes secretas do seu amor especial por seus irmãos? Aquele a quem o Salvador favoreceu com seu afeto, para confiar-lhe também a missão de filho da Sua Mãe, poderia ser outra coisa senão um memorial e um modelo (tanto quanto um homem pode sê-lo) de amor profundo, contemplativo, fervoroso, sereno e ilimitado?”[12].
Despertar corações
Entregar todo o coração a Deus não é simplesmente uma decisão pessoal: é um dom, o dom do celibato. Da mesma forma, não é uma renúncia que o define, mas o amor que nasce de uma descoberta: “O Amor... bem vale um amor!”[13]. O coração percebe um Amor incondicional, um Amor que estava esperando por ele, e quer se entregar a Ele de modo também incondicional, exclusivo. E não apenas para experimentá-lo, mas também para dá-lo a muitas outras pessoas. Como São João, que não apenas recebeu o amor de Jesus, mas também procurou estender esse Amor por todo o mundo. Para o discípulo amado, essa era uma consequência natural: “Se Deus nos amou desta maneira, nós também devemos amar uns aos outros” (1 Jo 4,11).
Às vezes, associa-se o celibato fundamentalmente à dedicação do tempo, como se essa entrega total se explicasse por uma questão de eficácia: para realizar certas obras de apostolado, para não ter outros compromissos. No entanto, essa perspectiva é reducionista. O celibato não nasce de considerações práticas sobre a disponibilidade para a evangelização, mas de um chamado de Cristo. É um convite a viver de maneira particular o estilo de vida do Seu coração: amar como Cristo, perdoar como Cristo, trabalhar como Cristo. Mais ainda, ser o mesmo Cristo – ipse Christus – para todas as almas. Portanto, “as razões apenas pragmáticas, a referência à maior disponibilidade, não são suficientes: esta maior disponibilidade de tempo poderia facilmente tornar-se também uma forma de egoísmo, que se poupa aos sacrifícios e às fadigas exigidas pelo aceitar-se, pelo suportar-se reciprocamente no matrimônio. Poderia assim levar a um empobrecimento espiritual ou a uma dureza de coração”[14].
O celibato não é, portanto, a solidão de uma torre de marfim, mas um chamado para acompanhar, para despertar corações. Quantas pessoas existem no mundo que não se sentem importantes, que pensam que a sua vida não tem valor, e que às vezes caem em comportamentos estranhos, porque estão procurando, no fundo, um pouco de amor! Quem recebe o dom do celibato sabe que está no mundo também para aproximar-se dessas pessoas e revelar a elas o amor de Deus: para recordar-lhes que têm um valor infinito. Assim, o coração celibatário é fecundo da mesma maneira que o coração redentor de Jesus é fecundo. Diante de cada pessoa, procura descobrir o mesmo bem que o Senhor sabia descobrir em quem se aproximava d’Ele. Ele não vê uma pecadora, um leproso, um publicano desprezível..., mas a maravilha de uma criatura amada por Deus, escolhida por Deus, de grande valor.
O celibato é um convite a viver de maneira particular o estilo de vida do coração de Cristo: ser ipse Christus para todas as almas
Deste modo, embora aqueles que vivem o celibato não tenham filhos naturais, tornam-se capazes de uma paternidade profunda e real. É pai – ou mãe – de muitos filhos, porque “a paternidade é dar vida a outros”[15]. Sabe que está no mundo para cuidar dos outros, mostrando-lhes, com a sua própria vida e com sua palavra amiga, que somente Deus pode saciar a sede que eles experimentam. “O nosso mundo (...) no qual Deus entra em jogo no máximo como hipótese, mas não como realidade concreta, precisa deste apoiar-se em Deus do modo mais concreto e radical possível. Tem necessidade do testemunho por Deus que se encontra na decisão de acolher Deus como terra sobre a qual se funda a própria existência. Por isso o celibato é tão importante precisamente hoje, no nosso mundo atual, mesmo se o seu cumprimento nesta nossa época esteja continuamente ameaçado e posto em questão”[16].
Um dom chamado a crescer dia a dia
O dom divino do celibato não é como um feitiço, que transforma a realidade imediatamente e para sempre. Deus o concede como uma semente que deve crescer gradualmente na terra boa. O celibato é, como toda vocação, dom e tarefa. É caminho. Portanto, a decisão de se entregar ao celibato pelo Reino dos Céus não é suficiente para o coração se transformar automaticamente. É necessário um esforço contínuo para arrancar as ervas daninhas, para estar atualizado sobre possíveis insetos e parasitas. A graça divina sempre age na natureza, sem negá-la nem a substituir. Em outras palavras, Deus conta com a nossa liberdade e a nossa história pessoal. E é precisamente aí, nesse cenário de barro e graça, onde cresce silenciosamente o belo dom de um coração virginal. Onde cresce... ou onde apodrece.
Como o filho mais novo da parábola, mesmo os que são chamados para uma maior intimidade com Deus podem um dia se sentir entediados, vazios. Aquele jovem decidiu ir a um lugar distante (cf. Lc 15,13), porque na casa de seu pai notou um vazio interior. Era necessário que ele chegasse ao fundo do poço, para finalmente abrir os olhos e perceber o estado de escravidão em que tinha caído. É interessante notar que, de acordo com o texto do Evangelho, a razão pela qual ele retornou não era muito espiritual: estava com fome, fome biológica, física. Sentia falta do pão saboroso da casa de seu pai. Quando ele finalmente voltou, o seu pai estava esperando por ele e, “correu para seu filho, e o abraçou e beijou” (Lc 15,20). O filho havia imaginado quase um julgamento formal (cf. Lc 15,18-19): em vez disso, encontra um abraço cheio de vida. Descobre, talvez mais claramente do que nunca, a sua identidade mais profunda: é o filho de um Pai tão bom.
Às vezes, o tédio pode assumir uma forma mais insidiosa: pode acontecer que, ficando na casa do pai, alguns se sintam mais servos do que filhos, como o irmão mais velho da parábola que “morava em casa, mas não era livre porque o coração dele estava fora”[17]. Nos dois casos, o caminho para sair da tristeza é dirigir os olhos para o Pai e para o amor que ele tem por nós. A fome da alma é satisfeita por Deus com o Pão da Eucaristia, em que encontramos Aquele que se tornou um de nós, para que possamos amá-lo como Amigo. Ali podemos saciar-nos e, assim, manter o coração aceso em um amor que é “forte como a morte” (Ct 8,6).
João permaneceu junto à Cruz de Jesus, e estava presente também em sua Ascensão aos Céus, “naquele dia em que uma aparente despedida foi verdadeiramente o começo de uma nova proximidade”[18]. O Mestre tinha que separar-se fisicamente dos seus discípulos, que tinha amado até o fim, para poder amá-los ainda mais de perto, e a cada um daqueles que acreditariam n’Ele. Esse é o segredo de um coração que vive o celibato: deixar um amor na terra para encher o mundo inteiro com a luz do seu Amor.
Por: Carlos Villar / Tradução: Mônica Diez


[1] Cf. S. João Paulo II, Audiência Geral, 10/10/1979; 24/10/1979; 31/10/1979.
[2] Cf. S. João Paulo II, Audiência Geral, 10/10/1979, n. 2.
[4] São Josemaria, Entrevistas, n. 122.
[6] São Josemaria, Caminho, n. 884.
[7] São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, edição crítico-histórica, Rialp, Madrid 2017, p. 185.
[8] São Josemaria, Via Sacra, VIII estação, nº 5.
[9] Assim “Amigo” São Josemaria chamava Jesus. Cfr. Caminho, n. 422; É Cristo que passa, n. 93.
[10] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 2.
[11] São Josemaria, notas de um encontro com jovens, 6-VII-1974 (AGP, biblioteca, P04, vol. II, p. 113).
[12] Newman, J.H., “Love of Relations and Friends”, Parochial and Plain Sermons 2, sermão 5.
[13] São Josemaria, Caminho, n. 171.
[15] Papa Francisco, Homilia em Santa Marta, 26-VI-2013.
[18] J. Ratzinger, “El comienzo de una nueva cercanía”, em El resplandor de Dios en nuestro tiempo, Herder, Barcelona 2008, p. 185.
Fonte: https://opusdei.org/pt-br/document/algo-grande-e-que-seja-amor-7-dar-a-vida-amigos/

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